domingo, 14 de outubro de 2012

Somos Todos Gregos, somos todos Espanhóis, somos todos Portugueses



Ele: Corte-me um dedo, por favor. Ela: Desculpe?!
Ele: Foi isso que ouviu, corte-me um dedo… por favor.
Ele, de trinta e poucos… muito poucos, com uma camisola de gola alta preta – a quem possa interessar a indumentária - surpreende a morena perfumada de mais, saltos altos, triste e perplexa, de joelhos colados. Separam-nos um balcão.
À hora deste diálogo, os hotéis de Macau continuam sem janelas, por causa dos possíveis suicidas que perderem ao jogo nos casinos.
O homem, recentemente casado, com alguns móveis ainda nas caixas pintadas a subtítulos em Sueco lá por casa, começa ele próprio a estranhar o procedimento de quem o atende.
Os joelhos da senhora com três filhos em colégio privado – em breve um deles começa a estranha aventura da escola pública -... os joelhos abrem-se no pouco espaço da saia travada. A morena, a senhora, a senhora morena levanta-se e fala com o gerente. Queixa-se de “um louco”.

Ele tira um dos brincos, porque não usa aliança, e coloca-o no balcão: É de prata.
Está a falar sozinho. Aliás, fala já apenas com o rasto de perfume.
Ela volta: Desculpe, o senhor continua com brincadeiras e eu chamo o segurança.
Ele: Olhe para mim, acha-me louco? Não se lembra dos recibos com os meus ordenados? Não se lembra de mim… é natural. Mas da minha esposa com certeza lembra-se: Uma negra com cabelo enorme, um sorriso lindo, desculpe mas é lindo… recorda-se?
Ela, sem expressão: Não!
Ele, finalmente percebendo que não fala com gente real: Engraçado, não se lembra e o vosso slogan é “Conncosco as Pessoas Contam”
Ela, assustada e segura de que a razão do mundo está consigo: Slogan, que slogan?! Olhe, não falamos a mesma linguagem, definitivamente.
Ele: Estou simplesmente a mostrar-lhe que não tenho razões para ser um aldrabão, para não pagar o meu empréstimo do crédito habitação… disse os termos correctos? Crédito habitação?! Corte-me um dedo, porque eu não tenho mais como pagar o empréstimo. É o meu sinal de compromisso. Haverá coisa mais preciosa para mim? Lembra-se da minha profissão… agora lembra-se com certeza!
Ela: Ouça…
Ele: Aceite… aceitem o meu dedo como compromisso e símbolo de honra. Concedam-me mais um tempo e eu volto a pagar a mensalidade. Conseguirei ganhar ainda mais dinheiro mesmo sem um dedo.
O Segurança, de gravata suja e camisa mal engomada, mas com tom de voz firme: Tem de sair, por favor?
Ele: Deixe-me falar com o gerente, ele já me viu ao vivo…
Ela para o Segurança: São cada vez mais estes loucos…
Ele, cansado: Ouçam, a sério… chamem o gerente. Ele conhece-me. Aceitem o meu dedo, por mais louco que vos possa parecer.
O Gerente, com todos os estereótipos que queiram colocar: Senhor… então? Como vai isso, para quê isto tudo? Sente-se, sente-se. E então, tem tido público?
A conversa era mais estranha para quem a ouvia. Se havia loucos.... agora eram dois.
O Gerente, com a calma de quem fez o mundo e não soube como o mundo viria a ser… este Gerente de barba aparada a pente dois e óculos de armação tigresse: Ouça, vou dizer-lhe o que habitualmente digo aos meus filhos. Durante muitos anos os papás pouparam para não terem de pagar as...
Ele: Que conversa é essa...?
O Gerente: Vá, não se exalte. Sabe bem que temos nós de apertar o cinto, agora somos todos gregos. 
Ele: Mas eu vi o nosso ministro dizer que não éramos gregos…
O Gerente: Siga o meu conselho... gente mole acaba como eles. 

O gerente sai para almoçar. Simplesmente. E aparentemente simples não é?
O homem não percebe nada e sente que o gerente não percebeu também nada do que ele pretendia dar. Sai da agência bancária, atravessa a rua sem olhar para a esquerda nem direita.
Ele, na loja de penhores: Quanto conseguem dar por um piano?
O Empregado: Depende. Vamos preencher uma ficha. Nome e Profissão?
Ele: Nome está aí no Bilhete de Identidade. Profissão… músico... Pianista. Mas não vou precisar mais do piano. Dos dedos sim… vou reinventar-me.
Empregado: Pode repetir?
Ele: Nada… nada. Para lá de Pianista sou louco.
E os hotéis de Macau continuam sem janelas, por causa dos possíveis suicidas que perderem ao jogo nos casinos.