Ele: Corte-me um dedo, por favor. Ela: Desculpe?!
Ele: Foi isso que ouviu, corte-me um dedo… por favor.
Ele, de
trinta e poucos… muito poucos, com uma camisola de gola alta preta – a quem
possa interessar a indumentária - surpreende a morena perfumada de mais, saltos
altos, triste e perplexa, de joelhos colados. Separam-nos um balcão.
À hora
deste diálogo, os hotéis de Macau continuam sem janelas, por causa dos
possíveis suicidas que perderem ao jogo nos casinos.
O homem,
recentemente casado, com alguns móveis ainda nas caixas pintadas a subtítulos em
Sueco lá por casa, começa ele próprio a estranhar o procedimento de quem o
atende.
Os
joelhos da senhora com três filhos em colégio privado – em breve um deles
começa a estranha aventura da escola pública -... os joelhos abrem-se no pouco espaço
da saia travada. A morena, a senhora, a senhora morena levanta-se e fala com o
gerente. Queixa-se de “um louco”.
Ele tira um dos brincos, porque
não usa aliança, e coloca-o no balcão:
É de prata.
Está a
falar sozinho. Aliás, fala já apenas com o rasto de perfume.
Ela volta: Desculpe, o senhor continua com brincadeiras e eu chamo o segurança.
Ele: Olhe para mim, acha-me louco? Não se lembra dos recibos com os meus
ordenados? Não se lembra de mim… é natural. Mas da minha esposa com certeza
lembra-se: Uma negra com cabelo enorme, um sorriso lindo, desculpe mas é lindo…
recorda-se?
Ela, sem expressão: Não!
Ele, finalmente percebendo que
não fala com gente real:
Engraçado, não se lembra e o vosso slogan
é “Conncosco as Pessoas Contam”
Ela, assustada e segura de que
a razão do mundo está consigo:
Slogan, que slogan?! Olhe, não falamos a
mesma linguagem, definitivamente.
Ele:
Estou simplesmente a mostrar-lhe que não tenho razões para ser um aldrabão, para
não pagar o meu empréstimo do crédito habitação… disse os termos correctos? Crédito
habitação?! Corte-me um dedo, porque eu não tenho mais como pagar o empréstimo.
É o meu sinal de compromisso. Haverá coisa mais preciosa para mim? Lembra-se da
minha profissão… agora lembra-se com certeza!
Ela: Ouça…
Ele:
Aceite… aceitem o meu dedo como compromisso e símbolo de honra. Concedam-me
mais um tempo e eu volto a pagar a mensalidade. Conseguirei ganhar ainda mais
dinheiro mesmo sem um dedo.
O Segurança, de gravata suja e
camisa mal engomada, mas com tom de voz firme: Tem de sair, por favor?
Ele: Deixe-me falar com o gerente, ele já me viu ao vivo…
Ela para o Segurança: São cada vez mais estes loucos…
Ele, cansado: Ouçam, a sério… chamem o gerente. Ele conhece-me. Aceitem o meu dedo,
por mais louco que vos possa parecer.
O Gerente, com todos os
estereótipos que queiram colocar:
Senhor… então? Como vai isso, para quê
isto tudo? Sente-se, sente-se. E então, tem tido público?
A
conversa era mais estranha para quem a ouvia. Se havia loucos.... agora eram dois.
O Gerente, com a calma de quem
fez o mundo e não soube como o mundo viria a ser… este Gerente de barba aparada
a pente dois e óculos de armação tigresse: Ouça, vou dizer-lhe o que habitualmente digo aos meus filhos. Durante muitos anos os papás pouparam para não terem de pagar as...
Ele: Que conversa é essa...?
O Gerente: Vá, não se exalte. Sabe bem que temos
nós de apertar o cinto, agora somos todos gregos.
Ele: Mas eu vi o nosso ministro dizer que não éramos gregos…
O Gerente: Siga o meu conselho... gente mole acaba como eles.
O gerente sai para almoçar. Simplesmente. E aparentemente simples não é?
O homem
não percebe nada e sente que o gerente não percebeu também nada do que ele pretendia
dar. Sai da agência bancária, atravessa a rua sem olhar para a esquerda nem
direita.
Ele, na loja de penhores: Quanto conseguem dar por um piano?
O Empregado:
Depende. Vamos preencher uma ficha. Nome e Profissão?
Ele: Nome está aí no Bilhete de Identidade. Profissão… músico... Pianista. Mas não vou
precisar mais do piano. Dos dedos sim… vou reinventar-me.
Empregado: Pode repetir?
Ele: Nada… nada. Para lá de Pianista sou louco.
E os
hotéis de Macau continuam sem janelas, por causa dos possíveis suicidas que
perderem ao jogo nos casinos.