sábado, 10 de novembro de 2012

Quero sair com a boca daqui

Meu amor, não aguento tanta beleza a esta hora da madrugada. O coração aos pulos, um pelo na boca e eu escondido do mundo por entre as tuas pernas, de língua áspera e maxilar cansado a querer falar e não conseguir, mas se o que eu conseguisse falar tivesse palavras, elas seriam impronunciáveis. Acho que vou morrer agora, tenho uma floresta atravessada na minha garganta e sinto-me perdido porque traio a minha esposa, em casa, a dormir sobressaltada com a minha ausência, os gémeos no beliche e o mais velho no outro quarto, pensando talvez em momentos como o meu, como este de agora em que roço o sexo nos teus joelhos. Morro de vergonha de sentir o teu sabor, vergonha porque não mereço tanto. Daqui, por entre o cheiro a cu e a suor, por entre o sabor das coisas mais secretas e belas com que alguma vez me encontrei, existe a sensação de suicídio para o que me espera lá fora. Se te digo tudo isto com a alma apenas, é porque penso em tudo ao mesmo tempo, é porque tudo o que eu sou me pesa, é porque a cicatriz da tua cesariana me faz chorar de emoção. Tenho medo de sair com a boca daqui, medo que me largues a cabeça, deixa-te, por isso, ficar assim com uma mão a prender-me e outra a agarrar a almofada... deixa-te ser apenas, encostada. Tenho medo de sair com a boca daqui, saber que o sol vai nascer e que outras pessoas vão acordar e interromper o respirar.... deste quarto.... contíguo ao teu, deste quarto onde ocasionalmente dizes ao teu marido que o amas. Se a tua alma falasse...

A minha alma fala. Lambe-me. Lambe-me e depois fode-me mas cala-te por favor. Não fales sequer do meu marido, não fales da tua mulher, não fales de nada, abre-me as pernas e apoia os meus tornozelos nos teus ombros. Entra devagar, peço-te, mas depois desobedece a tudo o que te disser, quero que sejas o diabo em forma de pessoa, quero que sejas alguém sem alma, alguém que não diz absolutamente nada e o único som que faz é urrar. Não te quero amar, quero-te quente cá dentro e a cair com um peso enorme sobre mim sem sequer me abraçares. Odeio-te. Por que me fazes isto de me quereres tanto? Não páres, não perguntes se me está a doer, tu és e serás sempre o outro e o único. Agora.... vem-te, por favor, agora querido....

Acho que vou morrer agora... não aguento mais, vou morrer dentro de ti,
não aguento tanta beleza a esta hora da madrugada