Meu amor, não aguento tanta beleza a
esta hora da madrugada. O coração aos pulos, um pelo na boca e eu
escondido do mundo por entre as tuas pernas, de língua áspera e
maxilar cansado a querer falar e não conseguir, mas se o que eu
conseguisse falar tivesse palavras, elas seriam impronunciáveis.
Acho que vou morrer agora, tenho uma floresta atravessada na minha
garganta e sinto-me perdido porque traio a minha esposa, em casa, a
dormir sobressaltada com a minha ausência, os gémeos no beliche e o
mais velho no outro quarto, pensando talvez em momentos como o meu,
como este de agora em que roço o sexo nos teus joelhos. Morro de
vergonha de sentir o teu sabor, vergonha porque não mereço tanto.
Daqui, por entre o cheiro a cu e a suor, por entre o sabor das coisas
mais secretas e belas com que alguma vez me encontrei, existe a
sensação de suicídio para o que me espera lá fora. Se te digo
tudo isto com a alma apenas, é porque penso em tudo ao mesmo tempo,
é porque tudo o que eu sou me pesa, é porque a cicatriz da tua
cesariana me faz chorar de emoção. Tenho medo de sair com a boca
daqui, medo que me largues a cabeça, deixa-te, por isso, ficar assim
com uma mão a prender-me e outra a agarrar a almofada... deixa-te
ser apenas, encostada. Tenho medo de sair com a boca daqui, saber que
o sol vai nascer e que outras pessoas vão acordar e interromper o
respirar.... deste quarto.... contíguo ao teu, deste quarto onde
ocasionalmente dizes ao teu marido que o amas. Se a tua alma
falasse...
A minha alma fala. Lambe-me. Lambe-me e
depois fode-me mas cala-te por favor. Não fales sequer do meu
marido, não fales da tua mulher, não fales de nada, abre-me as
pernas e apoia os meus tornozelos nos teus ombros. Entra devagar,
peço-te, mas depois desobedece a tudo o que te disser, quero que
sejas o diabo em forma de pessoa, quero que sejas alguém sem alma,
alguém que não diz absolutamente nada e o único som que faz é
urrar. Não te quero amar, quero-te quente cá dentro e a cair com um
peso enorme sobre mim sem sequer me abraçares. Odeio-te. Por que me
fazes isto de me quereres tanto? Não páres, não perguntes se me
está a doer, tu és e serás sempre o outro e o único. Agora....
vem-te, por favor, agora querido....
Acho que vou morrer agora... não
aguento mais, vou morrer dentro de ti,
não aguento tanta beleza a esta hora
da madrugada