Num dia de Abril o George Harrison apareceu no jardim do
Eric Clapton e antes de dizer, fosse o que fosse, começou a tocar numa guitarra
nada vaidosa uma canção nova: Here Comes The Sun. O Clapton disse que aquilo o
fez ficar “tão bem consigo mesmo, que sentiu o sol mais quente do que antes” nesse
dia de Abril. Mais. Que só o Harrison, o George, poderia fazer “aquilo”. Dias,
semanas, anos depois (parecendo a frase uma historieta de um mau filme da
Disney), o Beatle encontrou a mulher num jardim com Eric Clapton. Quando
percebeu o que se passava - rufar de tambores – perguntou: “Vais comigo ou com
ele?”. Ela, Mulher que nos assusta a todos pela independência: “Vou para
Casa!”. O George Harrison cantou centenas de mantras até lhe doer o maxilar
para afastar a raiva. Hoje, quando muitos se despedem do verão, eu entoo
mantras mas não quero afastar a raiva nem o amor que tenho dentro de mim. Tenho
um amor dentro e perto, “à beira”… como diria uma auxiliar de educação do
infantário da minha filha. Ah, tanto tempo em que pensei duas vezes em dizer “a
minha filha” por medo de vaidade. Mas é tão bom, é tão boa… a frase e a filha.
Os meus mantras entoados contra o governo, contra a crítica e as críticas todas
que carregam ao colo e chama talentosos aos vulgares que, coitados, querem ser
apelidados de qualquer coisa… e são. Mantras contra o empreendedorismo,
mercados… os mercados, contra o processo criativo, o absolutamente tutelar, o
absolutamente que não diz nem sim nem não, contra o analista, o dentista que
diz que não me pode estar a doer, contra o cluster, a comissão executiva, a
comissão de acompanhamento, a comissão parlamentar, a comissão Comissão, a
pulseira azul no advogado que coordena as comissões todas… a pulseira azul para
dizer que é humano como os outros e que não é só um discurso injectado e um
fato que custa mais do que um mês de ordenado dos que o elegeram como deputado.
Mantras contra os assexuados que têm medo dos elogios, contra os que escrevem
composições sobre a primavera e o outono e depois dizem aos filhos como se deve
escrever, sim, falo de adultos. Mantras contra os mantras, contra o clube de
futebol, contra as bicicletas nos passeios, contra os carros nas estradas,
contra as pessoas nas casas fechadas com medo de sair, contra o respeitinho e
aquela frase: “a liberdade dos outros começa ou acaba” e tal e tal, e já agora
contra o “tal e tal” e o “querido” que não é sentido. No fundo, é tudo um
caralho. Sim, essa gonorreia de palavra que não faz mal a ninguém e que é às
vezes profundo desespero e salvação. Porque as pessoas deixam de ter medo das
palavras e escrevem gatuno e gritam gatunos publicamente, nas ruas. E soa bem
não soa? Hoje, tudo começou com uma música do George Harrison, e vocês sabem
melhor do que eu que o Outono e o Inverno são tão belos e quentes como as
outras estações. Tudo começou num jardim como a religião, olha que engraçado, e
a história não acaba aqui. Não acaba mesmo! Porque quem não tem talento não
ficará para a História, da crítica ninguém se lembrará, os clubes de futebol
ainda são democráticos porque o dono da bola é o povo da bola que com lenços
brancos derruba quem não gosta, mesmo que o que venha a seguir seja pior, mas
derruba quem não elege e quem elege. Os mercados e o empreendedorismo duram até
aparecerem outras palavras absolutamente tutelares. Talvez Caralho seja. Talvez
caralho venha a ser uma dessas palavras. Não peço desculpa, não pedimos
desculpa pelo gatunos, pelo amo-te, pelo quero-te, pelo fode-me, pelas palavras
que sentimos. As palavras sentem-se? De que maneira. E queimam como dizem os
poetas… ou a poeta. E já agora, espalhem a notícia como diz o cantor. Digam que
tenho tanto amor dentro de mim que destruo o primeiro energúmeno que me
aparecer à frente a dizer o contrário. Temos todos não temos? Rua! Rua caralho
que acabar em Inglês fica sempre bem…. Esperem, tenham cuidado com o amor, mas
vivam-no a cada esquina porque nada mais importa, o resto vem por acréscimo. E
o amor nunca vive acima das nossas possibilidades. O amor nem sequer é uma
possibilidade. O amor é! Here Comes the Sun…
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