Sonho mais vezes em fumar do que em morrer. Deixei de fumar…
ainda não consegui deixar de morrer. Esvazio a cabeça e durmo e enquanto durmo
sonho… com outras coisas, mas também com estas de que vos falo. Ontem – sempre será
ontem quando pensarmos hoje nestas palavras - … ontem garantiram-me existirem “cidades
harmoniosas do outro lado, e quem está desse outro lado não sente vontade de
regressar”. Lá, a arquitetura é perfeita e não precisa de ser contemplada com
prémios, serve apenas a beleza de um mundo que também vivem da estética e de
como para ele se olha. Soubera disso antes e já me tinha deixado levar. De certeza
que ao deixar-me levar me deixava de preocupar e… ao deixar de me preocupar
deixaria de morrer. O que me dói mais na vida é que insisto em ser simpático
com ela, abandonando-me quase diariamente a deliciosas e parvas esperanças de
eternidade. A voz da senhora ao telefone, eu a imaginar-lhe os lábios a
moverem-se num vai e vem de hálito a caramelo; A birra da criança que estanca
para depois correr para o colo de alguém; A frase do burocrata a soar a poesia;
O poeta a escrever sobre a justiça; a justiça a tornar-se independente; O teu
beijo diferente todos os dias, diferente todos os dias com a mesma língua; Nos
feriados ninguém morre, na minha cabeça. É um dia demasiado aborrecido para
isso. Isso de passar a viver noutra cidade. Já tenho as malas feitas, já mudei
oito vezes de casa, vinte vezes de amor e duas vezes de clube… mas como diz uma
amiga a quem a morte rondou um destes dias - infelizmente às vezes sem intermitências
- “mudei-me para dentro de ti”. Eu consigo dizer que dentro de ti é impossível
mudar de amor e impossível morrer. Acho que se voltar a fumar não te importas.
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