Podes entrar. Não sou o melhor dos exemplos, mas posso ser um dos exemplos querendo, como qualquer outro, ser o melhor da sua espécie.
Vamos com poucas vírgulas e a acelerar. Três, dois, um…
A primeira imagem:
- Tenho cabeça de pila? Diz-me já! Sim ou não?
- Claro que não!
- Diz que sim!
- Sim tens, tens cabeça de pila.
- Ai tenho, então toma lá o esperma! (Cospe-me nos olhos comigo a rir para não chorar e ele e os amigos no chão em gargalhadas).
Mau? É pois. Mas agora vamos ver como foi na linguagem real…
agora que já percebes como é este mundo. Entra.
- Tenho cabeça de
pissa? - Não, claro que não!
- É melhor dizeres que sim se não já sabes que te parto o focinho!
- Sim, sim tens…
- Tenho o quê?
- Tens cabeça de pissa?
- Ai tenho, então toma lá a esporra! (Escarra-me para o olho comigo a rir para não chorar e os amigos no chão em gargalhadas)
(Acelerando e com menos pausas ainda)
Um sofá duas da manhã o único filme que dá tem linguados e é
em Espanhol. Boa, tem uma mulher com uns seios enormes mas… eles é que se beijam!?
Ela assiste apenas e eu fico chocado mas como não há mais nada a não ser aquela
imagem é com aquilo que me masturbo. Aquilo, é parte de mim como é parte de mim
o Godard e o seu Eternamente Mozart
numa sodomia em ruínas na guerra dos Balcãs, como é parte de mim o aniversário
das comemorações da Revolução Francesa com sexo de velhos com menores ou a
pornochachada do Abel Ferrara com a Bambola
e o Furio, um mundo de cabritos, violações e muita italianada. Aquilo é parte
de mim como o Harvey Keitel a pedir à adolescente que conduz um carro sem carta
para simular sexo oral. E vamos em dois ou três parágrafos dentro da minha
cabeça e ainda só viste sexo. Mas já misturo Godard e Almodovar… sim, que o
primeiro dos filmes e recordações com homens nos linguados é «A lei do Desejo».
(Acelerando)
O poster do Gullit, o caderno com a revista Bravo dentro e em
Alemão e eu sem saber uma palavra de Alemão. Os New Kids on the Block e
depois os Queen e o Spingsteen e depois os Doors e os Joy Division e depois os
Sepultura e os Rage Againt the Machine, os Pantera, os Nirvana, os Nine Inch Nails e desacelera….
E o Antony, o Rufus, os Buckley e o Cohen.Já está. Ai.
Citação um: “Graças a Deus que sou Ateu”. Citação dois: “Escrever é um acto de carpintaria”. Citação 3: “Quando as gaivotas seguem o navio pesqueiro, é porque elas pensam que sardinhas serão jogadas ao mar. Muito obrigado”. O quê?! Citação de Eric Cantona, é bem verdade, e nunca vou descobrir o que ele quis dizer em conferência de imprensa com uísque e uma bengala de burguês, após um jogo em que agrediu um adepto. Depois sou o Tom Cruise a imaginar o marinheiro a fazer amor com a esposa (De Olhos Bem Fechados… o último do Kubrick) arranjando justificação para estar com uma prostituta. Ninguém imagina melhor do que um homem para se sentir traído. Ninguém arranja desculpas melhores e mais estúpidas para si próprio do que um homem. Sou o agressor do quarto andar e sou o Clive Owen a perguntar à orelhuda da Julia Roberts se, entre ele e o bonzão do Jude Law, qual escolheria como melhor foda? Queremos sempre saber se marcámos as mulheres. Sempre. E se fomos os melhores? E comparamos o tamanho dos pénis e temos carros potentes com música alta como se eles fossem o prolongamento dos falos e… esperem… eu não! Eu não que tenho o pénis pequeno e passo a vida a inventar metáforas para justificar que o tamanho não importa. E continuamos com o sexo, desculpa. Mas se não for assim vou ter de dizer que fui o Balboa no Rocky IV, que fui o Slash na November Rain, que fui o Madjer de calcanhar e Maradona com a mão, que fui Bruce Lee e Elvis e isso, bem, isso sinto que não me ia ajudar contigo, por isso passo e guardo para mim como guardo o dia que beijei o Carlos para experimentar como era um beijo a sério e não havia nada nem ninguém por perto… também o obriguei a chupar-me porque ele era mais novo do que eu três anos e tinha força para o obrigar a fazê-lo. Sim, que eu queria saber como era chuparem-me. Alto, isto ainda é sexo mas… mas não é bem sexo. Compreende, é confissão de pré-adolescência masculina, a coisa mais dura do mundo: Não podes sair do autocarro porque o irmão do Carlos e do Janeca vão bater-te. Não podes ir à aula de Matemática porque vais ao quadro e não vais perceber nada do que vais escrever. Não podes ajudar o amigo deficiente porque vão achar que és como ele e tu, tu és estúpido suficiente para o abandonar e querer ser popular. Vais roubar dinheiro aos teus pais para comprar cigarros e copos de Macieira para arder queimar e impressionar. Hoje já nem bebes. Vais andar de pendura numa Famel de duas velocidades e vais andar nela com uma fita enorme de um capacete ao dependuro e mais parecerás um rafeiro com orelhas compridas a caminho da matiné. E é isso mesmo que és.
Mas também serei o pai. Eu quero que ela ou ele se apaixone.
Entra.
Calhou-me uma miúda, que ironia. Que bom. Ela que ame e seja
amada por homem ou mulher ou venha lá o que vier que eu quero estar para assistir.
É um bom princípio de mudança. O teu primeiro acto de altruísmo sincero
enquanto homem. E depois, podes citar Goethe ou Kierkegaard mas citas… e passo
a falar de novo na primeira pessoa, cito o John Cuzack no Alta Fidelidade: “Na minha fantasia elas não têm cuecas de algodão e
sei… sei que ao viver contigo o resto dos meus dias vais usar cuecas de algodão
gastas. Estou farto de fantasia. Queres casar comigo?”
Podes sair. Fecha a porta, mas leva a chave.
...hehehhehe ... hesitei em entrar mas como estava dentro do escalão etário (apesar de limitado)... entrei. Gostei ! Apesar de ser "gaiju", guardei a chave ... Abraço
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