domingo, 15 de janeiro de 2012

Hienas e colecções de cromos

Inevitável e estúpido. À minha volta, como à volta de muitos dos portugueses, gregos, brasileiros, angolanos e outros, há despedimentos. As pessoas e as famílias, os amigos e as crianças nunca dizem que se perderam “postos de trabalho”. Aquelas que eram a pintura das imagens de televisão banais e diárias sem a pachorra do telespectador (eu principalmente) atingem agora os que estão… à minha volta. Obviamente sinto-me instado a reclamar ainda mais porque me toca, isso mesmo. Devo dizer que ainda não chorei como quando vi as senhoras do Fundão irem buscar o dinheiro dos ordenados que lhes era devido. A representante das trabalhadoras, a representante das mulheres que trabalhavam, assim é que é, dentro do táxi a abanar o dinheiro para as outras que as esperavam ao longo da estrada nacional a bater palmas. A imagem é de «Mulheres de Força», do programa «Perdidos e Achados» da SIC (um dos poucos que me valia a pena) mostrou-nos o plano do interior do carro. Parecíamos, pela imagem do operador de câmara… parecíamos todos o Papa a ser recebido na mais católica das aldeias. Íamos à velocidade da imagem da justiça…. Às vezes ao ralenti, mas lá íamos.

À minha volta, nas mensagens privadas do Facebook, sempre longe dos blocos de informação da rádio, sempre longe das gordas ou magríssimas dos jornais, as pessoas são despedidas. Quem o ordena: Os licenciados de Harvard de Baixo, os maçónicos, os opus qualquer coisa, os opus tudo e mais alguma coisa, os políticos do Poder e os que já estiveram no Poder, os autarcas dos partidos com nome pronunciável à credibilização de um empréstimo bancário, sem fiador, à espreita para serem directores ou encaixarem em organismos que se alimentam da cobrança dos outros, as rémoras do tubarão. Demagogia é com certeza aquilo que escrevo porque o capital e os organismos são necessários, pois claro. Não digo que não, mas podiam ser organismos decentes! E quando estamos bem não nos lembramos.

Eu estou bem, e apesar dos despedimentos, da perda das rotinas que viciam mas dão pão às bocas, apesar dessas minudências, à minha volta também tudo vai estando bem. Finalmente percebemos que as empresas estavam à espera das palavras de um primeiro-ministro (em caixa baixa porque não merece outra coisa) e de um governo verdadeiro até ao tutano que dissesse que este ia ser “um ano difícil”. Esperaram… não como quem espera o orgasmo do amante que isso ainda tem amor e tem trabalho de mãos, de língua e de coração. Não, eles esperaram como quem espera um golo após o árbitro assinalar a grande penalidade em final de um Mundial. A forma como comemoram o golo é despedindo pessoas pulando de alegria nas costas das palavras “verdade” e “recessão”. As gorduras, as eternas gorduras estão a ser queimadas entre o calçadão inventado para os de sapatilhas de quatro dígitos e os ginásios com instrutores iguais aos do programa dos gordinhos. À volta dos que estão à minha volta, os que continuam empregados como eu - mas a fazer o que não gostam… ao contrário de mim - baixam a cabeça e labutam ou fazem desenhos a assinalar as tarefas das 14h00 e das 14h30 numa folha que só tem mentiras, e só podia ter: porque não conta o cocó das 14h15. Mas à volta dos que estão à minha volta, ou não lhes falam e vasculham como hienas as secretárias e gabinetes à cata de restos vivos e mortos ou comentam que deveriam ter acolhido a quase escravidão só por mais um ano até à reforma. Depois, há os que telefonam a toda a hora e só não se benzem e ficam roxos de espanto porque já não é prático, nem moda.
Amanhã estou eu à vossa volta, mas não me resigno ao inevitável. Isto é uma enorme contradição, mas a minha pobre licenciatura e o meu pobre ateísmo devem ser mais livres do que as colecções secretas de cromos e de fontes de informação para chegar lá… lá? Onde é que isso fica?

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