domingo, 15 de abril de 2012

O Cozinheiro e as Comédias do Minho

Era tanta estrada que não se via chuva ao início e depois tanta chuva que não se via estrada alguma. Só teríamos de encontrar o restaurante O Cozinheiro e seguir em direcção a Verdoejo. Destino: a loucura. «O Esmagador de Uvas», das Comédias do Minho, a minutos de começar no auditório daquela localidade de Valença, quando o Mercedes abrandou no seu capitalismo encantado pelos melros e assustado com o cão sem raça, que se lançava contra a rede em fúria. Nem o GPS, nem o Mercedes nem nós encontrávamos O Cozinheiro. O 118 forneceu o número mas ninguém d’ O Cozinheiro atendeu. O Mercedes, apaixonado entretanto por uma Toyota caixa aberta, encontrou o que nos faltava na rota e entrou no parque reservado ao restaurante. Ligam-se as duas televisões e o cozinheiro… o cozinheiro “desce já”.
- “O que é mais rápido? Tudo. Basta escolher”.

 Mas o cozinheiro não desce. Na lista, ao cimo da lampreia e do bitoque, uma fotografia com o logotipo do restaurante: o próprio cozinheiro, de chapéu e bigode. E o telefone toca:

-“Tentou ligar para este número?”

Era o cozinheiro, ele mesmo!

- “Sim sim, estamos aqui mesmo na sua sala de jantar, mas queríamos ir ver uma peça de teatro e temos já pouco tempo. Já aqui estamos na sala de jantar há um quarto de hora”
-Tudo bem, escolham, mas querem jantar é?
????
Quer dizer, querem jantar agora ou mais tarde?

- Mas estamos aqui na sua sala de jantar?
- Olhe, a sério, o que é mais rápido?

- Qualquer coisa, basta o cozinheiro descer.
E nós decidimos, antes de nos tornarmos no próximo prato, já sem fome e atrasados como sempre, que seria a cultura a alimentar-nos. Cultura não enche a barriga? Ai isso é que sim!
Um cenário pequeno e perfeito, uma tontice tão deliciosa e sarcástica sobre as disputas entre vizinhos, sobre a inveja e sobre os prazeres e os negócios do vinho, uma coisa assim daquelas que nos fazem lembrar que se pode rir no teatro, bater palmas a meio, comentar e comer com os actores no fim. É teatro. E o teatro é do povo, há quem não se lembre nem se queira lembrar disso. E este tem Shakespeare, hits de todos os tempos, História e histórias. E o povo de Verdoejo, que também tem actores e gente que faz a revolução a sério todos os dias contra o sistema, esse povo não perdoa e para lá de ir ao teatro, oferece empanadas, bolo de chocolate, vinho e cultura para debater e rebater.
Quanto ao cozinheiro d’ O Cozinheiro envio-lhe um sincero abraço. Mesmo que não desça ou que não possamos jantar, encontramo-nos no teatro das Comédias do Minho. Acredite que vale a pena.

1 comentário:

  1. Ó pá... isso é lindo! É o verdadeiro Portugal no seu melhor: com alma, alegria e barriga cheia :)
    (Confesso que tenho uma pontinha de inbejidade dessas tuas deambulações culturais :P)

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