quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Desempregados filhos de gente

Foi a primeira vez dela no Centro de Emprego. Esperou uma hora e foi atendida por uma senhora com óculos maiores do que a cara, com unhas sujas e uma pele de tal forma que se confundia com a parede atrás de si. Papéis, muitos papéis. Tecla "enter" várias vezes e as perguntas da senhora. As perguntas retóricas da senhora da mesma cor da parede:
"Técnica de Marketing não existe? Diz aqui que não entregou a monografia... Vai  tratar disso?
Conhecimentos de informática e Inglês… pode ser que dê, mas não chega pois não?
Sabe que tem de ir à Segurança Social?".
Sem sorrisos, sem esgares, sem…
Faltaram-lhe as palavras a ela para descrever a funcionária do Centro de Emprego como me faltam a mim no momento.

O segurança chama muitos nunos e sandros, carinas e iaras, neides e marisas. O segurança olha para todos como se fossem… desempregados. O regimento de Infantaria e Cavalaria aí está: "Recruta de seis currículos por mês, não pode recusar duas ofertas, visitas periódicas a sessões de esclarecimento". Vida ocupada a do desempregado.

Mas o segurança e a senhora da cor da parede estão tranquilos. Ele foi pai há pouco tempo. Ela... ela deve ser mãe de alguém. E sobre a mãe de alguém não devemos dizer que tem as unhas sujas  ou que é da cor da parede. Mas sorria senhora… vai ver que sobressai. Sorria mesmo que isto não esteja para sorrir, que eu também sei que vai trabalhar na terça-feira de Carnaval e no 5 de Outubro. Estamos todos do mesmo lado, somos todos filhos de alguém e quase todos pais de alguém. Sabe… os desempregados também.
Amanhã ela não volta ao centro de emprego. Mas a senhora que, caso sorria se destaca da parede, essa vai continuar até à reforma por ali. Não se vão ver mais estas duas.

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