Já estive numa prisão. Numa penitenciária. Num estabelecimento
prisional. Já me masturbei a pensar nas relações entre mulheres em
estabelecimentos prisionais. Tenho um grande amigo que é guarda prisional e não
foi mais o mesmo depois de ver um enforcado. A melhor peça de teatro que vi na
minha vida curta foi em Paços de Ferreira, no estabelecimento, o prisional.
Tragédia grega. Ninguém tinha cara de assassino. O encenador Nuno Cardoso
gritava-lhes e eles não respondiam. Voltavam às celas e depois ensaiavam. A estreia
teve guarda anti-motim. Tive medo. Mas eu conhecia-os. Mas nunca se conhece
ninguém pois não? E eu tive medo mesmo depois de muitos ensaios a que assisti.
Numa passadeira a luta corpo a corpo, a luta da tragédia grega era a valer. Tudo
se descarregava naquele palco / passadeira vermelha. E depois fomos todos para
casa e eles continuaram lá. Continuou o que se apaixonou “por uma agarrada”, o
que assaltou a bomba de gasolina, o que “desgraçou a vida por causa do cavalo”
e o que arranjava televisões. Esse, o mais talentoso de todos aqueles actores.
Não lhe tocavam apesar de o dele ser o maior dos crimes ali. Mas ele arranjava
as televisões. E era um actor incrível. Não sei se ainda o é. Foda. Pensava em
voltar a eles e de repente estou numa gala – a de que falei no texto anterior
com sarcasmo – com negros e miúdas loiras, negros e morenas à minha frente.
Músicos de Hip Pop dizia eu. Pois… sou perfeito a adivinhar digo para mim
mesmo. Sempre. No palco eram alegres, contagiantes, tinham nomes, óculos escuros
e eram são serão actores. Hoje revi as caras deles, as caras que estiveram
quatro horas à minha frente a levar com aborrecimento e arrotos elegantes da sopa
de pântano ao jantar. Hoje vi-os reclusos de Vale de Judeus. Tive medo. Mas só
hoje tive medo! Porque ontem eram músicos, certo? Têm músculos, histórias de
arrepiar, são mais novos do que eu e os palcos que vão pisar serão enormes
sempre. Tenho medo de os ver de novo ao pé de mim, medo de os não reconhecer,
medo de os ver como eles não são. Não são reclusos. Não são músicos. São actores.
Tenho medo de mim. E é de mim que devo ter medo. Quero voltar a Paços e saber
do elenco da Oresteia, voltar a sentir o medo de estar nervoso por eles e me
arrepiar. Quero ir a um lugar fora de Vale de Judeus, esse lugar sem que a
prisão me prenda enquanto vejo apenas e apenas teatro.
Sem comentários:
Enviar um comentário