Eu não queria acreditar, até porque o meu preconceito - muito por culpa da imagem que a própria entidade vende no dia-a-dia - não me permitiria pensar que o senhor agente achasse que livros como «Kaputt», de Curzio Malaparte ou a «Montanha Mágica» do Thomas Mann… creio terem sido os livros que ele reparou, fossem “o mais importante”. E ali estava um agente a falar comigo, sem me olhar como suspeito e a referir que também tinha nascido em Angola, depois de ver o meu Bilhete de Identidade. “Sabe, sobre as colónias existe um autor fantástico… Kapuscinski”. Pois que eu já tinha ouvido falar mas não conhecia bem e que me desculpasse a ignorância. Os minutos foram demasiado rápidos para quem acabava de ser vítima de qualquer coisa.
Das poucas vezes que me cruzei com polícias fardados mais do que cinco minutos - mesmo aqueles que abriram a porta à minha amiga Marta quando ela num Carnaval, vestida de coelhinha de Tony Silva se esqueceu da chave de casa - nem mesmo esses que se portaram condignamente perante o rabinho dela de pompom foram tão inspiradores sobre o que para mim e muitos de nós deveria ser a nossa força de segurança, referindo termos precisos.
Hoje revi o senhor agente na televisão, num documentário
sobre o enorme Manuel António Pina. Agente Villares. Assim se chama. O agente
Villares é uma das pessoas que fala no documentário sobre o gosto pela poesia
do MAP e cita poemas do Pina de cor. Fala deles às pessoas que se queixam na
esquadra e pensa neles quando é chamado a intervir nas cenas mais reais e
absurdas que a vida real tem. É sensato, é sensível e sabe o que é cumprir o
dever. Não é, nem deve ser um exótico. É o agente Villares.
Num país que fez uma revolução com cravos, por que não uma força de segurança pública carregada de gente
que saiba poemas suficientes para parar a os sangues dos automóveis ou as
queixas das mulheres ainda estupidamente casadas? Orgulho-me de ter conhecido o
agente Villares e fico vaidoso que ele circunde o meu bairro. Continuo sem ler qualquer livro do Ryszard Kapuscinski.
Pois, já não há polícias com antigamente! Ou há cada vez menos...
ResponderEliminar(é mais desejo do que constatação, mas vai no bom sentido)
É sempre um grande momento, o da surpresa.
ResponderEliminarJosephine
... bem, meu caro !!! abraço
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