domingo, 12 de fevereiro de 2012

Manuel António Pina e o agente Villares

Dias antes de me mudar para a minha vida eterna, o apartamento onde vivia foi vandalizado. Levaram uma Handycam, um afinador de guitarra e abriram uma garrafa de vinho tinto. Ainda não sei quem, ainda não sei quem foi nem desconfio e foi a única vez que me entraram em casa para roubar qualquer coisa que não fosse um fluido ou um pouco de coração e neurónios. No entanto, e por entre a natural atrapalhação dentro dos géneros descontraído e resignado com que encaro este tipo de pequenas fatalidades, esperei que os agentes da autoridade vissem o apartamento e anotassem a queixa – desculpem mas não sei o termo que vos deve estar na ponta da língua – para que eu pudesse ir à minha vida e descansar noutra cama que não aquela, remexida sabe-se lá por que mãos e com gavetas vazias espalhadas por sobre os lençóis. Onde pretendo ou antes a quem pretendo chegar é a um dos agentes da PSP que logo suspeitou ser a acção larápia do gang de Pedro Hispano – a rua deve ter ficado mais famosa – e disse-me que “raramente os bens são recuperados”, o que ia de encontro à minha resignação. Já de encontro à minha descontracção foi a atitude dele, a do agente, que depois de olhar a estante com meia dúzia de livros… “O que vale é que estes tipos não perceberam o mais importante que tem aqui”.

Eu não queria acreditar, até porque o meu preconceito - muito por culpa da imagem que a própria entidade vende no dia-a-dia - não me permitiria pensar que o senhor agente achasse que livros como «Kaputt», de Curzio Malaparte ou a «Montanha Mágica» do Thomas Mann… creio terem sido os livros que ele reparou, fossem “o mais importante”. E ali estava um agente a falar comigo, sem me olhar como suspeito e a referir que também tinha nascido em Angola, depois de ver o meu Bilhete de Identidade. “Sabe, sobre as colónias existe um autor fantástico… Kapuscinski”. Pois que eu já tinha ouvido falar mas não conhecia bem e que me desculpasse a ignorância. Os minutos foram demasiado rápidos para quem acabava de ser vítima de qualquer coisa.

Das poucas vezes que me cruzei com polícias fardados mais do que cinco minutos - mesmo aqueles que abriram a porta à minha amiga Marta quando ela num Carnaval, vestida de coelhinha de Tony Silva se esqueceu da chave de casa - nem mesmo esses que se portaram condignamente perante o rabinho dela de pompom foram tão inspiradores sobre o que para mim e muitos de nós deveria ser a nossa força de segurança, referindo termos precisos.

Hoje revi o senhor agente na televisão, num documentário sobre o enorme Manuel António Pina. Agente Villares. Assim se chama. O agente Villares é uma das pessoas que fala no documentário sobre o gosto pela poesia do MAP e cita poemas do Pina de cor. Fala deles às pessoas que se queixam na esquadra e pensa neles quando é chamado a intervir nas cenas mais reais e absurdas que a vida real tem. É sensato, é sensível e sabe o que é cumprir o dever. Não é, nem deve ser um exótico. É o agente Villares.
Num país que fez uma revolução com cravos, por que não uma força de segurança pública carregada de gente que saiba poemas suficientes para parar a os sangues dos automóveis ou as queixas das mulheres ainda estupidamente casadas? Orgulho-me de ter conhecido o agente Villares e fico vaidoso que ele circunde o meu bairro.
Continuo sem ler qualquer livro do Ryszard Kapuscinski.

3 comentários:

  1. Pois, já não há polícias com antigamente! Ou há cada vez menos...
    (é mais desejo do que constatação, mas vai no bom sentido)

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  2. É sempre um grande momento, o da surpresa.

    Josephine

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  3. ... bem, meu caro !!! abraço

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