A confeitaria
assina o mesmo jornal há três décadas, pelo menos. Há 21 anos mal sabia ler e
escrever e ainda não andava pela cidade onde confeitaria é palavra para ser levada a sério enquanto o jornal envelhecia
e se amarrotava nas mãos de todas as idades desta rua. O jornal pousado na arca
dos gelados. Verão e Inverno. É Fevereiro, é Inverno mesmo que as estações
desapareçam com as alterações climáticas.
Não sei o nome,
não quero ver o nome. Foi o primeiro dos desejos fotogénicos a sério. Porque achei
poder tornar-se real, ao contrário das mulheres das revistas para adultos
consumidas por adolescentes e por mim adolescente e pré-adolescente. Essas
nunca são reais. Ela sim. Ela poderia aparecer a qualquer esquina, a qualquer
espera de um verde para peões, a qualquer saída de pão de água. A paixão por
aquela cara que não se amarrota com o andar da vida é anterior a tudo o que
sabia sobre jornais e anterior à atenção que se deve ter nas coisas à volta da
coisa que queremos ver.
12 de Fevereiro deste
ano. Ela está ali próxima dos meus cotovelos e agora a seguro da agitação feliz
da minha filha que não pára de cirandar a pedir húngaros à senhora do balcão. A
imagem, não a recordo toda… apenas os olhos e a boca semi, semi… Não quero
olhar. Deixá-la estar assim aconchegada que eu continuo fixado na página par.
Preciso recordar a imagem para lá dos olhos pretos e do cabelo curto, por que
se não a recordar vou ter de a espreitar … de novo. Tenho a certeza que permanece
a mesma, como que à minha espera. E eu a crescer ou a minguar.
Os pais mantêm o
oitavo de página. Quando a julgava apenas uma menina mulher, deliciosa e
ternurenta que se me apresentava, na minha inocência, como vaidade de pais de
província que mandam publicar fotografias dos filhos assim que concluem a
licenciatura … quando a julgava assim vaidade dos pais, assim menina mulher,
deliciosa e ternurenta ela… já não era. Ela já não Era, do verbo ser… existir.
12 de Fevereiro.
Passam 21 anos sob a morte dela. O obituário tem hoje cruzes e anúncios a
saldos de missas de sétimo dia. Já é perfeitamente identificável. Há uns anos
talvez não. Provavelmente vi apenas uns olhos pretos. O negócio da igreja com
os defuntos ou o design monstruoso, destinado a convencer quem pague os
anúncios, fazem o leitor saltar as páginas ou escrever comentários absurdos:
“os que deixaram de fumar”.
Para o ano não
sei se estarei nesta rua, nesta confeitaria de pão e de costumes, e não sei se
o jornal se venderá. Mas ela vai ter 22 anos, 22 anos após a sua morte. E de
cada ano que passa e que nos amarrotamos ela parece ter sempre a idade dos
números por cima da imagem. Vou comprar um húngaro para a minha filha e levar,
comovido e apaixonado ainda, a boca semi-cerrada, semi-aberta, o cabelo curto e
o delicioso e ternurento olhar de uma página ímpar. A página mais importante do
dia 12 de Fevereiro de cada ano… por todos os anos.
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