terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

o oitavo de página

Preciso recordar a imagem. Os olhos são pretos, o cabelo é liso e curto, os lábios semi-cerrados ou semi-abertos como que a rimar com fruta. E não sei por que disparate penso que eles rimam com fruta ou com uma fruta qualquer que seja, uma específica que possa exemplificar. A vermelhidão no amadurecimento dos morangos, o laranja de um dióspiro a derreter, o laranja de dentro e o de fora… talvez porque os lábios dela me apeteçam na imagem como qualquer coisa que apetece trincar ou provar frio. Fruta fria… não como sobremesa açucarada com pacote. É o doce natural de sentir a textura e querer lembrar-me da imagem toda e enquanto o quero fazer, enquanto a quero beijar sabe-me a fruta no pensamento. Mas não posso. Não posso de vergonha e lamento tê-la já perdido faz 21 anos. Eu era um menino que mal sabia ler. Que mal sabia se era homem ou mulher, se era mulher ou homem, se era as duas coisas não sendo alguma delas em particular. Preciso recordar a imagem toda para que se me preencha o peito de ar gelado a entrar, misturado com o aroma de pão de água acabado de sair, pronto para vender. 

A confeitaria assina o mesmo jornal há três décadas, pelo menos. Há 21 anos mal sabia ler e escrever e ainda não andava pela cidade onde confeitaria é palavra para ser levada a sério enquanto o jornal envelhecia e se amarrotava nas mãos de todas as idades desta rua. O jornal pousado na arca dos gelados. Verão e Inverno. É Fevereiro, é Inverno mesmo que as estações desapareçam com as alterações climáticas.

Não sei o nome, não quero ver o nome. Foi o primeiro dos desejos fotogénicos a sério. Porque achei poder tornar-se real, ao contrário das mulheres das revistas para adultos consumidas por adolescentes e por mim adolescente e pré-adolescente. Essas nunca são reais. Ela sim. Ela poderia aparecer a qualquer esquina, a qualquer espera de um verde para peões, a qualquer saída de pão de água. A paixão por aquela cara que não se amarrota com o andar da vida é anterior a tudo o que sabia sobre jornais e anterior à atenção que se deve ter nas coisas à volta da coisa que queremos ver.

12 de Fevereiro deste ano. Ela está ali próxima dos meus cotovelos e agora a seguro da agitação feliz da minha filha que não pára de cirandar a pedir húngaros à senhora do balcão. A imagem, não a recordo toda… apenas os olhos e a boca semi, semi… Não quero olhar. Deixá-la estar assim aconchegada que eu continuo fixado na página par. Preciso recordar a imagem para lá dos olhos pretos e do cabelo curto, por que se não a recordar vou ter de a espreitar … de novo. Tenho a certeza que permanece a mesma, como que à minha espera. E eu a crescer ou a minguar.

Os pais mantêm o oitavo de página. Quando a julgava apenas uma menina mulher, deliciosa e ternurenta que se me apresentava, na minha inocência, como vaidade de pais de província que mandam publicar fotografias dos filhos assim que concluem a licenciatura … quando a julgava assim vaidade dos pais, assim menina mulher, deliciosa e ternurenta ela… já não era. Ela já não Era, do verbo ser… existir.

12 de Fevereiro. Passam 21 anos sob a morte dela. O obituário tem hoje cruzes e anúncios a saldos de missas de sétimo dia. Já é perfeitamente identificável. Há uns anos talvez não. Provavelmente vi apenas uns olhos pretos. O negócio da igreja com os defuntos ou o design monstruoso, destinado a convencer quem pague os anúncios, fazem o leitor saltar as páginas ou escrever comentários absurdos: “os que deixaram de fumar”.

Para o ano não sei se estarei nesta rua, nesta confeitaria de pão e de costumes, e não sei se o jornal se venderá. Mas ela vai ter 22 anos, 22 anos após a sua morte. E de cada ano que passa e que nos amarrotamos ela parece ter sempre a idade dos números por cima da imagem. Vou comprar um húngaro para a minha filha e levar, comovido e apaixonado ainda, a boca semi-cerrada, semi-aberta, o cabelo curto e o delicioso e ternurento olhar de uma página ímpar. A página mais importante do dia 12 de Fevereiro de cada ano… por todos os anos.

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