quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Meio Sunday

- E por que não hei-de ir a são Paulo?
- Não lhe posso financiar 500 euros de crédito.
- Estás maluco, não te empresto dinheiro para ires ter com uma brasileira!
- Mas pai eu dou-lho, desta vez dou-lhe mesmo, já sou adulto.
- E por que não hei-de ir a são Paulo?
 - Nuno, eu empresto-te dinheiro.
 - Obrigado prima.
Aeroporto em Lisboa, embarque às 15h00. Chego pouco pouco antes. E antes…. o elevador do vidro do super cinco parte-se. Deixo o carro no parque.
Destino São Paulo com escala em Madrid. Descola e aí vai um Victan. Mundo tranquilo. Por que não fiz isto há mais tempo?
Madrid. Horas de espera mas ainda fumo, posso fumar e vou fumando. Outro que descola, aconselho calma ao Jesuíta que quer ir para Belém. Como se andasse de avião há milhares de anos… eu. Eu e o Victan, sempre debaixo da língua, claro.
Guarulhos, seis da manhã. Armas visíveis e polícias altos de preto. Ninguém à minha espera. Tudo bem, vou ter de me virar até ao próximo avião que marcar. E de repente, quase sem olhos, descendentes da literal face oriental do pai (pai japonês, mãe italiana), a Ana! Um abraço. Envergonhados sem focar os olhos um do outro, depois de vivermos quatro meses juntos e com pedido de casamento e tudo. Upa! Quatro meses, sim… exacto. Pouco tempo para uns, demasiado para outros, vocês lá entendem o que é muito ou pouco tempo que eu ainda não sei.
Quando a conheci convidei-a para tomar café. Cidade do Porto. 23h30 em frente ao McDonalds dos Aliados. Noventa pulsações por minuto. Para lá da atracção física cai ali uma frase deliciosa…
- Desculpa, demorei muito?
E ela em frente ao Mc…, comendo o gelado: "Demorou meio Sunday"
Falei toda a noite de ex namoradas, dos pais, dos traumas, da cidade, do País, dos portugueses… boring ou aborrecimento! (fiquem com a expressão que acharem mais adequada nesta frase)!
- Sobes?
- Não Nuno…. Mas fica com o meu número (E o táxi lá vai)
Lixo com o número
Mas depois de dormir (não diria nunca dormir sobre o assunto) … vejo as coisas de outra forma. Remexo o balde da cozinha entre cascas de batata, cocó de gato e não sei mais o quê… mas é mau. Ela volta a sair comigo, e depois a jantar e depois a deitar e acordar, a provar-me de que a Gal Costa afinal já tinha cantado músicas fantásticas. As últimas das cassetes com Chico César, Marisa Monte e Cazuza. O resto foi um sonho a cada fluido com a graça das palavras.
Dois anos de escrita, de contos do Mia Couto entre São Paulo e o Porto. O Mia Couto voltava com comentários, a Clarice Lispector também lhe regressava com comentários. Tudo anotado, tudo a caneta.
E cá estamos em Guarulhos, agora com a Ana a conduzir e eu a ver um rio poluído e sem ver carochas. Onde estão os carochas?
- Nuno, ‘cê viu novela de mais!
Verdade. Nada era parecido, não consegui sequer beber água de côco, não vi a Tieta, não conheci a Malu Mader, nem todas as mulheres eram bonitas e as garrafas de cerveja vinham com guardanapo para não tocarmos directamente no vidro. Ibirapuera depois, arte arte arte e eu só queria ver amor, arte arte arte e eu só queria ouvir amor, arte arte arte… comida num restaurante onde os sapatos ficaram numa estante e escondi a ponta do mindinho no buraco da meia. Para mim, só para mim, Acarajé, “a melhor sandes de mortadela do mundo”, compras na rua onde existe tudo, desde o jogo do bicho às t-shirts de Sepultura e Legião Urbana – rua 15 de Novembro -, festas em andares de okupas que alugam apartamentos a universitários, ninguém com cigarro para me dar e eu a cravar  e… a sentir-me mal. Mas afinal não sou exótico?! Só às vezes:
 - Ele veio de Portugal para estar com a Ana?!
E eu dormia toda a manhã com «A Montanha Mágica» a meu lado... ela que lia.
Perdi-me em São Paulo e ouvi balas perdidas, confundi Vila Madalena com Santa madalena e por causa disso saí de táxis por não ter dinheiro. No dia seguinte ouvi: “você é demasiado romântico Nuno e se vira muito bem”.
Antecipo viagem, pago uma taxa. Parque da Portela e, para trazer o carro pago uma enorme taxa. Gastei mais em duas taxas que numa semana em Sampa. Almoço. Lanche. Doces e doces porque estou deprimido.
Ponte da Arrábida e depois, para esquecer: “Tu parles Français”. E Parler foi muito bom…. Depois… bem, depois fui a Paris. Mas só ao fim de dois anos.
Da Ana… reencontrada no evidente e óbvio escavador de imagens Facebook, sem as cartas com Mia Couto ou Galeano, sem a Clarice e apenas com likes e que “sim”, que me tinha amado muito, guardo o melhor de sempre entre o que posso contar. Espero tê-lo descrito no tempo de meio Sunday.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Conto de natal (ou uma espécie de fuga)

 “Não sabes nada sobre mim”. Foi o que ela disse ao levantar a cabeça do lavatório a soluçar, mas sem pestanejar. Filhos e netos depois, gerações de quadras depois, milhares de mudanças de posição para dormir… na mesma cama… depois, a frase dói-lhe a ele como a verdade que sempre dói. Cozinha, um crepe a um minuto no máximo do micro-ondas, gelado de baunilha dentro a desfazer-se. Um prato de sobremesa, colher de chá e garfo: “Tens aqui a tua metade de crepe”. Ela, hirta a olhar para a televisão, na sala, só se levanta para abrir a porta a filhos, netos e sobrinhos de muita denominação.
Os pratos de peixe da Noruega passam-lhe pela frente, como as recordações embrulhadas num silêncio pouco habitual, recordações das mulheres do Leste Europeu e do nosso Sul, do Norte de África, dos bares de colos a Norte e Centro até fronteiras espanholas… nunca a traiu porque “quando se paga não conta”.
Quando a porra da noite acaba espera que ela adormeça, ela que nunca tem problemas em adormecer. Faz as malas e sai. Durante a viagem de táxi pensa que “nunca lhe faltou com nada, ela que se limitava a ficar em casa a cuidar da prole, enquanto ele tinha de cheirar gasóleo, mudar filtro de óleo, juntas da colaça, radiadores, baterias, mínimos e médios”. Quis afastá-la dali, do mundo do desperdício negro com cheiro a combustível... mas chegar a casa, sozinho ou com quer que fosse era sinal para pratos na mesa, sem grandes perguntas, sem quase nada.
“Não sabes nada sobre mim”. A frase a martelar. E ele dizia-lha ao ouvido para lhe humedecer a vulva: “sabes tudo sobre minha linda sacana”.
Hoje não sai do quarto pago. Na sala principal há o desfile das cadeiras de rodas, das bengalas e dos discursos das dentaduras soltas em frente a árvores de plástico e vereadores. Sai por uma porta das traseiras da casa da misericórdia infinita e não leva mais do que uma camisola de gola alta por cima de do pijama. Não há neve nas ruas como na paisagem romântica, mas há frio… muito. 
As mercearias e os talhos fechados com coelhos sem cabeça pendurados pelas patas iluminados por estrelas, as mercearias e as pastelarias com desenhos de barrigudos com barrete e os anjos a tocar cornetinhas fazem a ponte entre os semáforos da cidade deserta de pessoas… desenham “feliz natal”.
24 de Dezembro de uma treta de um ano qualquer, por mais que não se reveja em si mesmo à passagem dos dias e dos anos, continua sem saber nada sobre ela. Se quer saber? Quer, mas só os anjos, as estrelas e as cornetas aparecem sempre todos os anos. Nada mais.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Ao Manel Cruz

Por que é o que o tipo que passa por mim quase todos os dias e frequenta os mesmos sítios do que eu é mais artista? Por que raio ele há-de ser mais criativo nas noites separadas por dois blocos de apartamentos? Hum? Para que se prove que eu não sou o único a ter razões deste raciocínio, basta-nos ir ao conceito vulgar de beleza física para descrever o que sinto. Ou seja, quando se ouve qualquer coisa do género: “Quem, aquela actriz, estás doido, ela é «the girl next door»…. nada mais do que isso”. Ora, quer isso expressar que a ordem natural não permite que no nosso mundo não possam passear-se coisas extraordinárias… e ai ai que mente a frase e a Natureza castradora porque já tive vizinhas e vizinhos lindos, bem mais tesudas e tesudos do que actores e actrizes dos filmes legendados.
Então, e se ele é do meu quotidiano, se ele calca as minhas ruas como eu calco as dele, se ele toca e eu também toco, se ele canta e eu também canto, se ele desenha ou ilustra e eu escrevo… se fumamos e imaginamos, às vezes no limbo, as mesmas coisas ou coisas tão diferentes que se tornam parecidas… então a cena (sim, “cena” mesmo de “cena”… da gíria linguística) fica completamente empatada!
E os anos passam. E as obras passam. E o tipo que passa por mim todos os dias continua igual e a mudar por dentro e eu igual por dentro a mudar por fora. As canções ao pé de mim. Um acenar de cabeça. Ele na televisão e na rádio. Um cumprimento com "olá" ou um aperto de mão. Ele nas entrevistas do lado de lá e eu do lado de cá a querer estar mais vezes do lado de lá, e só de vez em quando o consigo…. tenho direito a uma foto, a uma menção de uma actuação para 50, 60 pessoas… brutal (com várias letras A para parecer melhor e mais jovem). Mas o tipo já vai falando do palco com mil ou duas mil, vinte mil ou outras tantas mil que já nem dá para precisar, que isto dos milhares e milhões traz muita confusão.
Ressabiado, mas realizado, vou continuando as minhas 60 pessoas e os meus livros, os meus filhos e as minhas críticas de Velho do Restelo em frente ao computador ou ao ecrã da televisão. Ele, continua a calcar a rua que eu já não calco e tem tanto talento que nem ruas devia calcar… devia voar por sobre elas bem rente como os vampiros dos bons filmes de vampiros.
“Integridade” é uma palavra que tenho ouvido muito em adulto mas nunca soube atingi-la ou compreendê-la como um todo. Se há qualquer coisa parecida com ela, com a palavra e o que ela significa, tenho a certeza que é  abdicar de dinheiro, fugir ao mercado que te leve a todos os sítios que queiras e não queiras, abdicar do blowjob nacional e simultâneo para continuar... (rufar de tambores) amigo dos amigos e do resto dos mortais. Assim são e foram os Ornatos Violeta, assim vão sendo os músicos – pelo menos os que conheço – que em 2002 interromperam um percurso de “uau caramba foda-se genial” para se manterem neste planeta. Senhoras e senhores; Respect!
Por estes dias falei com o Manel Cruz e percebi que o tipo do talento fora do vulgar é «the man next door» felizmente, e que este «the man... ou guy next door» tem filhos e vai ao infantário como nós, bebe e respira como nós, fala como nós, ri-se como nós, ouve como nós… e apesar de isso lhe conferir a calma do mundo sem insónias, é preciso ter em conta que, se quiser, ele descobre um novo planeta e vai lá fumar um cigarro, regressando a casa no mesmo dia. Já eu, continuo artista a perguntar-me sobre os artistas mais novos, até parar de pairar quando falo com o Manel.
Obrigado Manuel ou Manel Cruz. E já agora, mata-me outra vez… todos os dias de preferência.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Eu... broker financeiro?!


Esta semana comprei o saco. E no saco, com a revista «Única» dentro, vem um artigo ou crónica assinada por Luís Pedro Nunes. Sob o título «Pânico é Coisa de Macho», ele vai escrevendo coisas com alguma graça, de facto, aludindo às depressões de pessoas tão importantes como Horta Osório e outros que tais. Até aí tudo bem, porque a minha hipocrisia estava-se marimbando para a saúde do senhor burguesito, independentemente da forma como deve ter escalado a montanha do sucesso de gestão bancária. Mas como qualquer outro tipo egoísta, o problema foi quando me tocou a mim. E isto é soa-me a coisas que andam por aí… isto de quando toca a nós. Sim, eu sei que já perceberam, desculpem meus três leitores amigos e amorosas pessoas. Portanto, eu pobre me indignei quando Luís Pedro Nunes – responsável por o «Inimigo Público» ter perdido piada – pensou no seu tom mais sério para escrever… e transcrevo: “Os ataques de pânico, antes exclusivos de brokers e financeiros, estão a tornar-se uma epidemia de quadro médio e superior, que no silêncio da secretária vão acumulando stresse e mantendo uma cara de póquer. Até um dia estourar. E o problema começa logo pelo nome da coisa: ‘ataque de pânico’ (…) Em vez de ataques de pânico, bastaria chamar-lhe SEAL – Síndrome de Excesso de Adrenalina Lixada, para ser mais aceite e desmistificado entre a comunidade de gajos que tem dificuldade em acreditar que são mortais”. Gajo… Luís, ouve, é verdade que este gajo que sou tem essa dificuldade diária, porque tem/tenho medo de morrer mais vezes do que os que não têm medo. No entanto, o gajo Luís Pedro Nunes está equivocado quanto à origem social dos ataques de pânico em brokers e financeiros, e comprovo com factos: olha para mim! Passo a descrever: Pai e mãe… quarta classe. Ela não tinha ordenado, ele tinha uma pensão de invalidez que hoje continua nos fabulosos duzentos e qualquer coisa euros. A única palavra que saía da boca da mãe era o sufixo “obia”, “obia”, “obia”, que era o que ela repetia a chorar quando apanhei com uma pica de Valium no rabo. Era o que ela percebia do que o médico de um hospital de uma pequena cidade da Beira Alta – esse círculo financeiro e bolsista espectacular – lhe tinha dito para explicar por que estava eu a morrer. A “obia” tornou-se “fobia” e depois “ataque de pânico”, palavra que a mãe consegue pronunciar e perceber. De financeiro eu não tinha nada, de falhado muito, mas consigo ser melhor palhaço que o Luís Pedro Nunes. É que um palhaço chora e ri, não tem meio-termo. Quando um palhaço se quer tornar sério é porque alguma coisa vai mal nas suas piadas. É melhor manter no humor e nem sequer evocar psicologia, medicina geral ou bom senso porque eu gajo que ainda vai nas centenas de euros de ordenado continua, de facto, a ter medo de morrer apenas. É a minha maneira de ser macho! Tenho de parar… dói-me o peito.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Sem ressentimentos… e sem o mar

“Não consigo viver longe do mar”. Sempre ouvia dela esta frase. Levava-a para a água, dormíamos nas dunas, ouvíamos as gaivotas e acordávamos com a espuma nos pés. E agora, o meu ponto de vista sem que ela saiba: levava-a para a água oferecendo-lhe tudo o que ela mais queria. Passava pelas brasas com areia nos pelos e a comichão era tão intensa que não conseguiria dormir, mesmo que quisesse. É que além do frio o barulho das gaivotas pela madrugada tornava-se insuportável. Mas, por outro lado, também é verdade que ela me oferecia coisas boas: uma língua quente e saliva gelada, um arrepio que subia pela espinha e um sorriso enquanto se espreguiçava. Até eu podia vir a gostar, um dia, do mar!
Em criança, a minha mãe ficava a fazer toalhas de mesa ou naperons em crochet. Na areia nos dias quentes, no carro nos dias frios ou chuvosos. O meu pai sempre a olhar para a cana de pesca e a ignorar-me. O que contava era se a cana abanava ou não. Se abanasse, gemia: “é robalo”. E eu a areia. Eu e as alforrecas mortas. Eu e os barcos ao longe. Eu e aquele barulho monótono das ondas. Eu e Eu. Nem conseguia falar com amigos imaginários se os tivesse porque não os ouvia por causa das ondas. Durante dez anos não havia fim-de-semana que não fosse assim. Se não dava para sair do carro nem um pouco por causa de tempestades ficávamos a ver a passaragem de um dos abismos – caramba o carro ficava a três metros do nada… bastava um ponto morto - onde permanecíamos estacionados. Lá dentro o meu pai a amaldiçoar o tempo com a cana de pesca e os carretos na bagageira, a minha mãe com o crochet e eu sentado no banco de trás. Eu e Eu. Eu e os estofos, eu e os relatos de futebol da emissora nacional. Em onda média pois claro.
Assim sendo, quando cresci e me apaixonei a ponto de me casar, fui ignorando os sinais. Ela disse que me aceitava no registo civil. Fomos felizes. Fomos felizes numa casa no meio da montanha, com ar frio e neve, com filhos e lareira. Fomos.
 Hoje, quando me perguntam: “Como podes não a odiar quando ela vos abandonou a todos?”
Eu respondo convicto: Ela é uma sereia, as sereias não conseguem viver longe do mar.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Quando formos a Praga

2001, Porto. Por ser Capital Europeia da Cultura, muitos espectáculos e de várias latitudes (adoro a expressão... fica bem) chegam à cidade. É um facto, aliás, foi um facto. Entrevisto um senhor que maior parte dos jornalistas não dá importância. Nem eu, provavelmente. Mas lá estou com o velhinho e com uma intérprete que vai traduzir do Checo para o Português. Ela, loira alta, atraente aos meus olhos e o título de checa ajuda... mas qualquer coisa me impede de lhe pedir o telefone.
O velhinho não é um senhor qualquer, pelo menos em termos de sofrimento… e se o sofrimento marca pontos na vida então ele é especial. Não sei se ainda é vivo, embora tenha um cartão com a morada dele no sítio dos cartões bolorentos e nunca me tenha esforçado para o contactar.
O velhinho já foi criança e quando criança integrou o elenco de «Brundibár», uma ópera composta para menores por Hans Krása, nascido em Praga em 1899 e executado em Auschwitz em 1944. A ópera foi introduzida no Campo de Concentração de Teresin pelo próprio compositor. E o velhinho, o velhinho está no Porto porque vai assistir à produção de «Brundíbár» pela Casa da Música. É uma das poucas crianças sobreviventes do elenco. Sobrevivente entre sobreviventes, criança para sempre.  
A cada resposta traduzida pela loira matulona eu vou ficando fascinado com a história de sofrimento qual coiote ou abutre, e depois fascinado por ser dos poucos a entrevistá-lo. Não sou eu, é um jornalista. Quando a coisa acaba mostra-me o número do braço e eu fico enjoado. Aquilo já não é na televisão! Tiro um Ventil e ofereço-lho, ele diz qualquer coisa muito comprida e fica cabisbaixo, mais ainda do que ao longo da entrevista. Porra, já nem acendo o cigarro! Ela diz-me que o pai dele foi médico e que passava todo o tempo livre a apanhar beatas do chão em Teresin, esquecendo-se da comida. Para a criança agora muito muito crescida… para o velhinho, essa era a pior das humilhações. Só aí deixo de pairar e percebo a besta que estou a ser, qual nazi a bater palmas a uma ópera. Pergunto se quer companhia para jantar, se quer conhecer a cidade, se já comeu francesinhas e todo o tipo de frivolidades. Ele dá-me um cartão e diz para a tradutora, enquanto me aperta a mão e me olha fixamente: “quando ele for a Praga que me ligue… os meus filhos devem ter mais ou menos a idade dele… que lhe mostrem então a cidade”.
Quando for a Praga ligo.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

É um dia-a-dia vulgar para a mesa 3

Ter recibo verde permite-me ficar em casa às vezes muitas vezes vezes de mais nunca me canso sei lá eu e acho que gosto. Trabalhar a partir de um telefone fixo, dormir até às 16h00, ficar acordado até às 04h00, passar pelas brasas e ir para a cama às 05h00… hum, deitar-me na cama aquecida e fazê-lo com movimentos que se ouvem no silêncio todo da casa. Claro que essas minudências de descontar quase o ordenado todo e ser literalmente perseguido pelos serviços nada secretos que perseguem pessoas ricas como eu não retiram o prazer da coisa. Não me deixam dormir bem aquelas horas diurnas mas este país não é para malandros. Como diz o meu santo pai: “filho, não te preocupes que este homem vai resolver tudo”. E eu então fico mais descansado, bastante mais descansado porque é sempre bom um conselho paternal. No dia em que as coisas forem mesmo ao osso eu posso acusar o meu pai e dizer: “então!” Mas a vida não é uma guerra com o meu pai. Há mais vida para lá do … ah ah…. Para lá do conflito com o meu pai. A propósito, inventei uma frase esta semana que gostava de pôr à consideração do Freud que vem cá jantar às sextas-feiras. A frase: “quando nos morre a mãe morre-nos tudo, quando nos morre o pai morremos nós próprios”. Continuando com o sofá, a televisão, o telefone fixo e as perseguições... escrevia eu: Valha-me o prazer, ainda, de fazer o que gosto. Quando acordar bem cedo, e prometo fazê-lo não se preocupem, irei ao bairro 5 resolver a coisa ou minimizá-la, mas entretanto vou ficando com os perigos de ficar em casa, engordando (palavra que o Governo detesta) e achando, vejam lá, que a agente Lisbon hoje estava mais bonita do que o normal, que o Luther é mesmo bom porque comete imensos erros e sofre de amor, que às vezes me passa por fracções de segundo ser o Manuel Subtil e entrar no canal 1 da RTP e barricar-me, na SIC generalista e barricar-me, na TVI e barricar-me. “Só saio daqui quando tirarem os gordos, as velhas, os ranchos, as comidas tradicionais e os viúvos dos vossos estúdios!”. Depois, ao sair algemado os intelectuais batem palmas e a minha mãe ao fundo a fazer o “pelo sinal da santa cruz livre-nos deus nosso senhor…” . Esperem, está a começar mais um episódio do CSI Las Vegas… e gosto realmente disto eu que nunca pude ver imagens de operações e transplantes nos blocos noticiosos, ah… e ainda enho gravadas muitas outras coisas. Hum, a BBC evoluiu muito na ficção, o Jon Stewart é coisinha mais saudável que existe, tanta coisa entre telefonemas e textos e textos e textos. Então e o blog ou blogue? Ai que me esquecia! Sei lá…  vamos a um conto qualquer ou espécie, vamos a isto: “ela olhava o sol para se alimentar convencida por uma nova seita….” Esqueçam, o assassino não é quem o Patrick Jane achava que era?!
P.S. Alguns dos nomes podem ser cifrados para quem não é viciado em televisão como eu. Como não poderia ser se vi o Banderas com outro homem, se vi as caras da Béatrice Dalle e da Adjani na expressão de dor e prazer em simultâneo, se vi o Madjer a marcar um golo na neve às duas da madrugada… eu que naquele tempo ainda tinha de pôr depertador para acordar às duas da manhã. Ainda não estava a recibo verde… tinha 11 anos.

domingo, 11 de dezembro de 2011

As Feridas dos Galos

Quando o António da Mocha disse que a irmã do Fernandito “abria as pernas a todos”, claro que haveria confronto de titãs no intervalo das duas horas de Português.
O Fernandito era um rapaz baixo, mas rijo. Os pais tinham um negócio de feira há anos – roupas e todo o género de tecidos para casa – e a irmã gémea falsa era uma protegida pela ordem natural das coisas, embora não precisasse. Mas é sempre assim.  
Fosse nos jogos de futebol em que o Fernandito era craque, fosse nos problemas das filas para a refeição na cantina da escola, ele mostrava os dentes e deitava qualquer um abaixo.
O António da Mocha era meu amigo… quer dizer, mais ou menos. Explico: Convinha-me que assim fosse por causa da sua popularidade. Na verdade, ele era uma besta neste início da adolescência. Filho único que carregava com sacos de cimento quase todos os fins-de-semana e subia escadotes com um balde de massa em cada mão para despejar por entre as vigas das construções. Tinha uma estrutura apreciável, que é como quem diz: Um cabedal de meter medo. Ora, gabar-se de linguados e outros cuspos com a irmã do Fernandito para depois dizer que “abria as pernas a todos” não foi uma ideia brilhante. Mas o início da adolescência masculina é isto não é? A perfeita estupidez das palavras.
Ao som da campainha o António da Mocha (Mocha era alcunha da mãe na aldeia dele) desceu as escadas em t-shirt, vestindo o casaco serenamente como se não estivessem graus negativos. O chão estava gelado e tínhamos de caminhar bem devagar para não dar um “bate cu”.
 O Fernandito apareceu-lhe à esquina de um dos pavilhões. Choque imediato. Por entre o som da embrulhada e dos gritos das ‘ninas já só se via o António deitado com o joelho na garganta que lhe prendia todos os movimentos. A cabeça colada ao gelo e ele roxo a olhar de frente o Fernandito e a sentir-lhe o bafo. Debatia-se com os olhos raiados e espumava pela boca. O Fernandito controlava a coisa e esperou que o matulão ficasse quedo para se levantar e sair sem olhar para trás.
O António da Mocha chorava por dentro, aflito e sem forças. Humilhado, sentiu que não tinha desculpa possível, e só quando a campainha tocou é que ele tirou o casaco para o sacudir. Voltou a vesti-lo e lá foi à segunda hora de Português. Eu segui-o sem dizer palavra. Sabia que ele ia carregar cada vez mais sacos de cimento e até dois baldes de massa em cada mão para conseguir a vingança.
A escola é um campo de batalha. Não há diferença de idades, não há jogo limpo, não há explicação para o que acontece em segundos a parecer uma eternidade. Nem sequer explicação para as lutas de galos. O futuro pode dizer que “escorregou no gelo, que não tinha comido, que foi à traição”, mas a verdade foi vista por todos. Agora é só acelerar o tempo e sarar as feridas. Algumas duram quase toda a vida… e tem de ser uma vida longa para que sarem.

(Dedicado ao Real Madrid 1 Barcelona 3 de 12 de Dezembro de 2011)   

sábado, 10 de dezembro de 2011

Já adorei pornochachada. Não, obrigado.


Depois de dias a ver odes sobre bordas da pornografia, para não dizer limites nem outras chatices, venho por este meio não literário nem coisa alguma partilhar que nem sempre existe cocaína numa orgia, que nem sempre existem mulheres e homens suficientes numa orgia… Nas que eu conheço. E no mundo que eu conheço, com direito a odes ou não, bastam 50 euros para pôr o sexo no devido sítio e soltar palavras porcas à vontade sem que nos espreitem. E quando saímos somos os mesmos defensores das boas práticas e dos direitos femininos. Quando saímos falamos mal dos políticos e da corrupção, das chacinas da televisão e da pouca cultura dos outros.
A Lara, portuguesa, dorme 5 horas por dia porque de cada vez que toca a campainha tem de se apresentar ao cliente. Se for escolhida tem meia hora de vaginal e oral ou uma hora… com anal extra. Se não for escolhida, passa desmaquilhante e volta a dormir vinte minutos até ao próximo cliente; A katja, bielorussa, fica quinze dias no Alentejo numa casa de “sobe e desce” e ganha 20 euros nas garrafas de espumante rançoso que são compradas pelos senhores a 70 euros. Sempre alcatifa, sempre Tony Carreira e outros portugueses românticos, de vez em quando música do Nordeste do Brasil e muitas pernas nos colos e barrigas dos tipos de gargalhada fácil e bem sonora; A Lina, a romena, tem a pensão por uma semana e “bochechos” faz no carro… mas só os bochechos porque “pitinha é no segundo andar” e não pode deixar o rapaz lamber as “maminhas porque ainda está a amamentar”. Aqui não há coca nem odes à graciosidade, mas também há tesão, necessidade e muita esposa devota traída por betos de todos os quadrantes políticos e apolíticos, morais de mais ou amorais. Aqui não há swing que o valha nem chaves de mercedes ou volvos (para dizer marcas de gama média alta à sorte) jogadas numa terrina que já serviu pudim e agora serve a troca de casais.
Aqui há cheiro a esperma, cheiro a lubrificante, cheiro a todos os números de Chanel, de vez em quando silicone, papel higiénico em cima de uma mesa-de-cabeceira, o cheiro a pénis mal lavado e provavelmente só lavado neste dia (ah sim… um, dois, três diga lá outra vez com direito a editar mais um livro… sinónimos de pénis: pila, piça ou pissa? pixota, mangalho, caralho, caralhete, cacete, zezinho, mangueira, tarolo) … aqui há escadas e homens que nunca se cruzam, a porta com uma luz acesa 24 horas e infecções urinárias a dar com um pau. Está boa assim a descrição? Se fui suficientemente boçal… foi um prazer.
De coca já foi tempo e de degredo também… de memórias, entre as falsas e as verdadeiras de outra vida ficam sempre as imagens mais podres e a luxúria nem sempre teve de misturar drogas. Bastava misturar a mentira em larga escala para ter na mesma cama e no mesmo dia a mãe e a filha a falarem mal uma da outra e a gemerem da mesma forma. Isso já é outra louça...
 A coisa não tem graça quando é paga. Nem para nós, nem para eles nem para elas nem para eles/ elas. Não confundam é Ubaldo com pornochachada, não confundam Miller com série B, não achem que qualquer memória desprovida de sensatez seja suficientemente louca para vos deixar loucos…. Mas isso vocês sabem. E agora estou a ser moralista e invejoso, puta que pariu.  

36,5º


O mundo perfeito tem 36 graus e meio. A Matemática, a Economia, a ciência em geral e o bom senso poderão dizer o que quiserem, mas, no meu mundo egoísta a perfeição são 36 graus e meio. Tenho 36 anos… e meio, falta muito para os 37, e não mudarei de opinião nem que viva para sempre. Banho de água tépida, antipirético, pouca roupa e um coração apertado longe do coração dela para não aquecer ainda mai...s o corpo. Ela tinha 40… quase apagada, mas foi baixando… nunca baixando os 38 em 24 horas. Pensa-se no mar, nos beijos, nos golos sofridos, na mãe, na merda e diz-se "foda-se" baixinho para que ninguém ouça… mas depois pedimos desculpa como se deus, seja ele quem for, ali esteja... pelo sim pelo não, não vá o diabo tecê-las. E quando chegam os 36 e meio já não é preciso mais nada... nem os animais no jardim zoológico nem os berlindes coloridos.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Mother do you think they....

Mâe, é verdade o que te escrevo, embora o tenha dito a várias teclas de computador, a múmias e a invertebrados. Amo-te.
Mamã vomita lá o Salazar no bidé e acredita: a droga não faz assim tão mal.
As patentes e divisas dos meus manos são mais altas eu sei… como sei que eles vestem decentemente e são contra os homossexuais, que não gostam de arrumadores e rosnam que “os árabes ainda vão foder isto tudo”. Mãe, sabes que não quis escrever “foder” mas… acho que é o que eles dizem mesmo e tu estás farta que eu minta não é? Mãe, hoje quero colocar-te o seguinte cenário: E se eu tivesse feito o que me aconselhaste? “Sempre calado e a respeitar o patrão”. Poderia estar ainda a carregar sacos de arroz e a meter gasolina… mas lembras-te que nesse Verão portei-me bem no emprego de praia. Não refilei e vi o patrãozinho mandar os outros seis empregados homens/crianças “espetar” a empregada dos gelados. Ela foi espetada pelos seis na mesma noite, na mesma praia sob o mesmo luar… e deve-se lembrar como eu me lembro. Eu não fui! Mas também não refilei nem fiz nada mãe, portei-me bem vês! Respeitinho.
Depois lá veio o pasquim. Mãe, eles gozavam porque eu lia romances latino-americanos e queriam que eu escrevesse OTAN em vez de NATO. Saí e fui dar aquela volta que até ontem me atiravas à alma por causa dos recibos verdes e dos telefonemas que te fazia a pagar no destinatário. Quando voltei ao pasquim ele estava pintado de laranja em todas as divisões. Fui apanhado a copular com uma fotocopiadora, meti cunha a um embaixador, vi corpos a boiar, entrevistei damas de espadas que diziam ter o deus delas de andar por casa, ouvi que o «guerra e paz» era do Dostoevsky, estive frente a frente com um homem que disse ser a reencarnação do Agostinho da Silva e vi transformarem-se todos os poemas do Eugénio em tulipas. Não aguentei, sobretudo porque as patroas ouviam scorpions e diziam a toda a hora a frase “boa noite e um queijo”. A patroa mor perguntou-me se eu fumava charros… eu disse-lhe: sabe, a droga não faz assim tão mal.
Mãe, diz-me hoje o que hei-de fazer? Embora eu… embora eu saiba o que vais dizer: Que a droga, afinal, não faz assim tão mal