sábado, 17 de dezembro de 2011

Sem ressentimentos… e sem o mar

“Não consigo viver longe do mar”. Sempre ouvia dela esta frase. Levava-a para a água, dormíamos nas dunas, ouvíamos as gaivotas e acordávamos com a espuma nos pés. E agora, o meu ponto de vista sem que ela saiba: levava-a para a água oferecendo-lhe tudo o que ela mais queria. Passava pelas brasas com areia nos pelos e a comichão era tão intensa que não conseguiria dormir, mesmo que quisesse. É que além do frio o barulho das gaivotas pela madrugada tornava-se insuportável. Mas, por outro lado, também é verdade que ela me oferecia coisas boas: uma língua quente e saliva gelada, um arrepio que subia pela espinha e um sorriso enquanto se espreguiçava. Até eu podia vir a gostar, um dia, do mar!
Em criança, a minha mãe ficava a fazer toalhas de mesa ou naperons em crochet. Na areia nos dias quentes, no carro nos dias frios ou chuvosos. O meu pai sempre a olhar para a cana de pesca e a ignorar-me. O que contava era se a cana abanava ou não. Se abanasse, gemia: “é robalo”. E eu a areia. Eu e as alforrecas mortas. Eu e os barcos ao longe. Eu e aquele barulho monótono das ondas. Eu e Eu. Nem conseguia falar com amigos imaginários se os tivesse porque não os ouvia por causa das ondas. Durante dez anos não havia fim-de-semana que não fosse assim. Se não dava para sair do carro nem um pouco por causa de tempestades ficávamos a ver a passaragem de um dos abismos – caramba o carro ficava a três metros do nada… bastava um ponto morto - onde permanecíamos estacionados. Lá dentro o meu pai a amaldiçoar o tempo com a cana de pesca e os carretos na bagageira, a minha mãe com o crochet e eu sentado no banco de trás. Eu e Eu. Eu e os estofos, eu e os relatos de futebol da emissora nacional. Em onda média pois claro.
Assim sendo, quando cresci e me apaixonei a ponto de me casar, fui ignorando os sinais. Ela disse que me aceitava no registo civil. Fomos felizes. Fomos felizes numa casa no meio da montanha, com ar frio e neve, com filhos e lareira. Fomos.
 Hoje, quando me perguntam: “Como podes não a odiar quando ela vos abandonou a todos?”
Eu respondo convicto: Ela é uma sereia, as sereias não conseguem viver longe do mar.

Sem comentários:

Enviar um comentário