sábado, 24 de dezembro de 2011

Conto de natal (ou uma espécie de fuga)

 “Não sabes nada sobre mim”. Foi o que ela disse ao levantar a cabeça do lavatório a soluçar, mas sem pestanejar. Filhos e netos depois, gerações de quadras depois, milhares de mudanças de posição para dormir… na mesma cama… depois, a frase dói-lhe a ele como a verdade que sempre dói. Cozinha, um crepe a um minuto no máximo do micro-ondas, gelado de baunilha dentro a desfazer-se. Um prato de sobremesa, colher de chá e garfo: “Tens aqui a tua metade de crepe”. Ela, hirta a olhar para a televisão, na sala, só se levanta para abrir a porta a filhos, netos e sobrinhos de muita denominação.
Os pratos de peixe da Noruega passam-lhe pela frente, como as recordações embrulhadas num silêncio pouco habitual, recordações das mulheres do Leste Europeu e do nosso Sul, do Norte de África, dos bares de colos a Norte e Centro até fronteiras espanholas… nunca a traiu porque “quando se paga não conta”.
Quando a porra da noite acaba espera que ela adormeça, ela que nunca tem problemas em adormecer. Faz as malas e sai. Durante a viagem de táxi pensa que “nunca lhe faltou com nada, ela que se limitava a ficar em casa a cuidar da prole, enquanto ele tinha de cheirar gasóleo, mudar filtro de óleo, juntas da colaça, radiadores, baterias, mínimos e médios”. Quis afastá-la dali, do mundo do desperdício negro com cheiro a combustível... mas chegar a casa, sozinho ou com quer que fosse era sinal para pratos na mesa, sem grandes perguntas, sem quase nada.
“Não sabes nada sobre mim”. A frase a martelar. E ele dizia-lha ao ouvido para lhe humedecer a vulva: “sabes tudo sobre minha linda sacana”.
Hoje não sai do quarto pago. Na sala principal há o desfile das cadeiras de rodas, das bengalas e dos discursos das dentaduras soltas em frente a árvores de plástico e vereadores. Sai por uma porta das traseiras da casa da misericórdia infinita e não leva mais do que uma camisola de gola alta por cima de do pijama. Não há neve nas ruas como na paisagem romântica, mas há frio… muito. 
As mercearias e os talhos fechados com coelhos sem cabeça pendurados pelas patas iluminados por estrelas, as mercearias e as pastelarias com desenhos de barrigudos com barrete e os anjos a tocar cornetinhas fazem a ponte entre os semáforos da cidade deserta de pessoas… desenham “feliz natal”.
24 de Dezembro de uma treta de um ano qualquer, por mais que não se reveja em si mesmo à passagem dos dias e dos anos, continua sem saber nada sobre ela. Se quer saber? Quer, mas só os anjos, as estrelas e as cornetas aparecem sempre todos os anos. Nada mais.

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