Quando o António da Mocha disse que a irmã do Fernandito “abria as pernas a todos”, claro que haveria confronto de titãs no intervalo das duas horas de Português.
O Fernandito era um rapaz baixo, mas rijo. Os pais tinham um negócio de feira há anos – roupas e todo o género de tecidos para casa – e a irmã gémea falsa era uma protegida pela ordem natural das coisas, embora não precisasse. Mas é sempre assim.
Fosse nos jogos de futebol em que o Fernandito era craque, fosse nos problemas das filas para a refeição na cantina da escola, ele mostrava os dentes e deitava qualquer um abaixo.
O António da Mocha era meu amigo… quer dizer, mais ou menos. Explico: Convinha-me que assim fosse por causa da sua popularidade. Na verdade, ele era uma besta neste início da adolescência. Filho único que carregava com sacos de cimento quase todos os fins-de-semana e subia escadotes com um balde de massa em cada mão para despejar por entre as vigas das construções. Tinha uma estrutura apreciável, que é como quem diz: Um cabedal de meter medo. Ora, gabar-se de linguados e outros cuspos com a irmã do Fernandito para depois dizer que “abria as pernas a todos” não foi uma ideia brilhante. Mas o início da adolescência masculina é isto não é? A perfeita estupidez das palavras.
Ao som da campainha o António da Mocha (Mocha era alcunha da mãe na aldeia dele) desceu as escadas em t-shirt, vestindo o casaco serenamente como se não estivessem graus negativos. O chão estava gelado e tínhamos de caminhar bem devagar para não dar um “bate cu”.
O Fernandito apareceu-lhe à esquina de um dos pavilhões. Choque imediato. Por entre o som da embrulhada e dos gritos das ‘ninas já só se via o António deitado com o joelho na garganta que lhe prendia todos os movimentos. A cabeça colada ao gelo e ele roxo a olhar de frente o Fernandito e a sentir-lhe o bafo. Debatia-se com os olhos raiados e espumava pela boca. O Fernandito controlava a coisa e esperou que o matulão ficasse quedo para se levantar e sair sem olhar para trás.
O António da Mocha chorava por dentro, aflito e sem forças. Humilhado, sentiu que não tinha desculpa possível, e só quando a campainha tocou é que ele tirou o casaco para o sacudir. Voltou a vesti-lo e lá foi à segunda hora de Português. Eu segui-o sem dizer palavra. Sabia que ele ia carregar cada vez mais sacos de cimento e até dois baldes de massa em cada mão para conseguir a vingança.
A escola é um campo de batalha. Não há diferença de idades, não há jogo limpo, não há explicação para o que acontece em segundos a parecer uma eternidade. Nem sequer explicação para as lutas de galos. O futuro pode dizer que “escorregou no gelo, que não tinha comido, que foi à traição”, mas a verdade foi vista por todos. Agora é só acelerar o tempo e sarar as feridas. Algumas duram quase toda a vida… e tem de ser uma vida longa para que sarem.
(Dedicado ao Real Madrid 1 Barcelona 3 de 12 de Dezembro de 2011)
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