quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Meio Sunday

- E por que não hei-de ir a são Paulo?
- Não lhe posso financiar 500 euros de crédito.
- Estás maluco, não te empresto dinheiro para ires ter com uma brasileira!
- Mas pai eu dou-lho, desta vez dou-lhe mesmo, já sou adulto.
- E por que não hei-de ir a são Paulo?
 - Nuno, eu empresto-te dinheiro.
 - Obrigado prima.
Aeroporto em Lisboa, embarque às 15h00. Chego pouco pouco antes. E antes…. o elevador do vidro do super cinco parte-se. Deixo o carro no parque.
Destino São Paulo com escala em Madrid. Descola e aí vai um Victan. Mundo tranquilo. Por que não fiz isto há mais tempo?
Madrid. Horas de espera mas ainda fumo, posso fumar e vou fumando. Outro que descola, aconselho calma ao Jesuíta que quer ir para Belém. Como se andasse de avião há milhares de anos… eu. Eu e o Victan, sempre debaixo da língua, claro.
Guarulhos, seis da manhã. Armas visíveis e polícias altos de preto. Ninguém à minha espera. Tudo bem, vou ter de me virar até ao próximo avião que marcar. E de repente, quase sem olhos, descendentes da literal face oriental do pai (pai japonês, mãe italiana), a Ana! Um abraço. Envergonhados sem focar os olhos um do outro, depois de vivermos quatro meses juntos e com pedido de casamento e tudo. Upa! Quatro meses, sim… exacto. Pouco tempo para uns, demasiado para outros, vocês lá entendem o que é muito ou pouco tempo que eu ainda não sei.
Quando a conheci convidei-a para tomar café. Cidade do Porto. 23h30 em frente ao McDonalds dos Aliados. Noventa pulsações por minuto. Para lá da atracção física cai ali uma frase deliciosa…
- Desculpa, demorei muito?
E ela em frente ao Mc…, comendo o gelado: "Demorou meio Sunday"
Falei toda a noite de ex namoradas, dos pais, dos traumas, da cidade, do País, dos portugueses… boring ou aborrecimento! (fiquem com a expressão que acharem mais adequada nesta frase)!
- Sobes?
- Não Nuno…. Mas fica com o meu número (E o táxi lá vai)
Lixo com o número
Mas depois de dormir (não diria nunca dormir sobre o assunto) … vejo as coisas de outra forma. Remexo o balde da cozinha entre cascas de batata, cocó de gato e não sei mais o quê… mas é mau. Ela volta a sair comigo, e depois a jantar e depois a deitar e acordar, a provar-me de que a Gal Costa afinal já tinha cantado músicas fantásticas. As últimas das cassetes com Chico César, Marisa Monte e Cazuza. O resto foi um sonho a cada fluido com a graça das palavras.
Dois anos de escrita, de contos do Mia Couto entre São Paulo e o Porto. O Mia Couto voltava com comentários, a Clarice Lispector também lhe regressava com comentários. Tudo anotado, tudo a caneta.
E cá estamos em Guarulhos, agora com a Ana a conduzir e eu a ver um rio poluído e sem ver carochas. Onde estão os carochas?
- Nuno, ‘cê viu novela de mais!
Verdade. Nada era parecido, não consegui sequer beber água de côco, não vi a Tieta, não conheci a Malu Mader, nem todas as mulheres eram bonitas e as garrafas de cerveja vinham com guardanapo para não tocarmos directamente no vidro. Ibirapuera depois, arte arte arte e eu só queria ver amor, arte arte arte e eu só queria ouvir amor, arte arte arte… comida num restaurante onde os sapatos ficaram numa estante e escondi a ponta do mindinho no buraco da meia. Para mim, só para mim, Acarajé, “a melhor sandes de mortadela do mundo”, compras na rua onde existe tudo, desde o jogo do bicho às t-shirts de Sepultura e Legião Urbana – rua 15 de Novembro -, festas em andares de okupas que alugam apartamentos a universitários, ninguém com cigarro para me dar e eu a cravar  e… a sentir-me mal. Mas afinal não sou exótico?! Só às vezes:
 - Ele veio de Portugal para estar com a Ana?!
E eu dormia toda a manhã com «A Montanha Mágica» a meu lado... ela que lia.
Perdi-me em São Paulo e ouvi balas perdidas, confundi Vila Madalena com Santa madalena e por causa disso saí de táxis por não ter dinheiro. No dia seguinte ouvi: “você é demasiado romântico Nuno e se vira muito bem”.
Antecipo viagem, pago uma taxa. Parque da Portela e, para trazer o carro pago uma enorme taxa. Gastei mais em duas taxas que numa semana em Sampa. Almoço. Lanche. Doces e doces porque estou deprimido.
Ponte da Arrábida e depois, para esquecer: “Tu parles Français”. E Parler foi muito bom…. Depois… bem, depois fui a Paris. Mas só ao fim de dois anos.
Da Ana… reencontrada no evidente e óbvio escavador de imagens Facebook, sem as cartas com Mia Couto ou Galeano, sem a Clarice e apenas com likes e que “sim”, que me tinha amado muito, guardo o melhor de sempre entre o que posso contar. Espero tê-lo descrito no tempo de meio Sunday.

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