2001, Porto. Por ser Capital Europeia da Cultura, muitos espectáculos e de várias latitudes (adoro a expressão... fica bem) chegam à cidade. É um facto, aliás, foi um facto. Entrevisto um senhor que maior parte dos jornalistas não dá importância. Nem eu, provavelmente. Mas lá estou com o velhinho e com uma intérprete que vai traduzir do Checo para o Português. Ela, loira alta, atraente aos meus olhos e o título de checa ajuda... mas qualquer coisa me impede de lhe pedir o telefone.
O velhinho não é um senhor qualquer, pelo menos em termos de sofrimento… e se o sofrimento marca pontos na vida então ele é especial. Não sei se ainda é vivo, embora tenha um cartão com a morada dele no sítio dos cartões bolorentos e nunca me tenha esforçado para o contactar.
O velhinho já foi criança e quando criança integrou o elenco de «Brundibár», uma ópera composta para menores por Hans Krása, nascido em Praga em 1899 e executado em Auschwitz em 1944. A ópera foi introduzida no Campo de Concentração de Teresin pelo próprio compositor. E o velhinho, o velhinho está no Porto porque vai assistir à produção de «Brundíbár» pela Casa da Música. É uma das poucas crianças sobreviventes do elenco. Sobrevivente entre sobreviventes, criança para sempre.
A cada resposta traduzida pela loira matulona eu vou ficando fascinado com a história de sofrimento qual coiote ou abutre, e depois fascinado por ser dos poucos a entrevistá-lo. Não sou eu, é um jornalista. Quando a coisa acaba mostra-me o número do braço e eu fico enjoado. Aquilo já não é na televisão! Tiro um Ventil e ofereço-lho, ele diz qualquer coisa muito comprida e fica cabisbaixo, mais ainda do que ao longo da entrevista. Porra, já nem acendo o cigarro! Ela diz-me que o pai dele foi médico e que passava todo o tempo livre a apanhar beatas do chão em Teresin, esquecendo-se da comida. Para a criança agora muito muito crescida… para o velhinho, essa era a pior das humilhações. Só aí deixo de pairar e percebo a besta que estou a ser, qual nazi a bater palmas a uma ópera. Pergunto se quer companhia para jantar, se quer conhecer a cidade, se já comeu francesinhas e todo o tipo de frivolidades. Ele dá-me um cartão e diz para a tradutora, enquanto me aperta a mão e me olha fixamente: “quando ele for a Praga que me ligue… os meus filhos devem ter mais ou menos a idade dele… que lhe mostrem então a cidade”.
Quando for a Praga ligo.
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