sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Ao Manel Cruz

Por que é o que o tipo que passa por mim quase todos os dias e frequenta os mesmos sítios do que eu é mais artista? Por que raio ele há-de ser mais criativo nas noites separadas por dois blocos de apartamentos? Hum? Para que se prove que eu não sou o único a ter razões deste raciocínio, basta-nos ir ao conceito vulgar de beleza física para descrever o que sinto. Ou seja, quando se ouve qualquer coisa do género: “Quem, aquela actriz, estás doido, ela é «the girl next door»…. nada mais do que isso”. Ora, quer isso expressar que a ordem natural não permite que no nosso mundo não possam passear-se coisas extraordinárias… e ai ai que mente a frase e a Natureza castradora porque já tive vizinhas e vizinhos lindos, bem mais tesudas e tesudos do que actores e actrizes dos filmes legendados.
Então, e se ele é do meu quotidiano, se ele calca as minhas ruas como eu calco as dele, se ele toca e eu também toco, se ele canta e eu também canto, se ele desenha ou ilustra e eu escrevo… se fumamos e imaginamos, às vezes no limbo, as mesmas coisas ou coisas tão diferentes que se tornam parecidas… então a cena (sim, “cena” mesmo de “cena”… da gíria linguística) fica completamente empatada!
E os anos passam. E as obras passam. E o tipo que passa por mim todos os dias continua igual e a mudar por dentro e eu igual por dentro a mudar por fora. As canções ao pé de mim. Um acenar de cabeça. Ele na televisão e na rádio. Um cumprimento com "olá" ou um aperto de mão. Ele nas entrevistas do lado de lá e eu do lado de cá a querer estar mais vezes do lado de lá, e só de vez em quando o consigo…. tenho direito a uma foto, a uma menção de uma actuação para 50, 60 pessoas… brutal (com várias letras A para parecer melhor e mais jovem). Mas o tipo já vai falando do palco com mil ou duas mil, vinte mil ou outras tantas mil que já nem dá para precisar, que isto dos milhares e milhões traz muita confusão.
Ressabiado, mas realizado, vou continuando as minhas 60 pessoas e os meus livros, os meus filhos e as minhas críticas de Velho do Restelo em frente ao computador ou ao ecrã da televisão. Ele, continua a calcar a rua que eu já não calco e tem tanto talento que nem ruas devia calcar… devia voar por sobre elas bem rente como os vampiros dos bons filmes de vampiros.
“Integridade” é uma palavra que tenho ouvido muito em adulto mas nunca soube atingi-la ou compreendê-la como um todo. Se há qualquer coisa parecida com ela, com a palavra e o que ela significa, tenho a certeza que é  abdicar de dinheiro, fugir ao mercado que te leve a todos os sítios que queiras e não queiras, abdicar do blowjob nacional e simultâneo para continuar... (rufar de tambores) amigo dos amigos e do resto dos mortais. Assim são e foram os Ornatos Violeta, assim vão sendo os músicos – pelo menos os que conheço – que em 2002 interromperam um percurso de “uau caramba foda-se genial” para se manterem neste planeta. Senhoras e senhores; Respect!
Por estes dias falei com o Manel Cruz e percebi que o tipo do talento fora do vulgar é «the man next door» felizmente, e que este «the man... ou guy next door» tem filhos e vai ao infantário como nós, bebe e respira como nós, fala como nós, ri-se como nós, ouve como nós… e apesar de isso lhe conferir a calma do mundo sem insónias, é preciso ter em conta que, se quiser, ele descobre um novo planeta e vai lá fumar um cigarro, regressando a casa no mesmo dia. Já eu, continuo artista a perguntar-me sobre os artistas mais novos, até parar de pairar quando falo com o Manel.
Obrigado Manuel ou Manel Cruz. E já agora, mata-me outra vez… todos os dias de preferência.

Sem comentários:

Enviar um comentário