sábado, 10 de novembro de 2012

Quero sair com a boca daqui

Meu amor, não aguento tanta beleza a esta hora da madrugada. O coração aos pulos, um pelo na boca e eu escondido do mundo por entre as tuas pernas, de língua áspera e maxilar cansado a querer falar e não conseguir, mas se o que eu conseguisse falar tivesse palavras, elas seriam impronunciáveis. Acho que vou morrer agora, tenho uma floresta atravessada na minha garganta e sinto-me perdido porque traio a minha esposa, em casa, a dormir sobressaltada com a minha ausência, os gémeos no beliche e o mais velho no outro quarto, pensando talvez em momentos como o meu, como este de agora em que roço o sexo nos teus joelhos. Morro de vergonha de sentir o teu sabor, vergonha porque não mereço tanto. Daqui, por entre o cheiro a cu e a suor, por entre o sabor das coisas mais secretas e belas com que alguma vez me encontrei, existe a sensação de suicídio para o que me espera lá fora. Se te digo tudo isto com a alma apenas, é porque penso em tudo ao mesmo tempo, é porque tudo o que eu sou me pesa, é porque a cicatriz da tua cesariana me faz chorar de emoção. Tenho medo de sair com a boca daqui, medo que me largues a cabeça, deixa-te, por isso, ficar assim com uma mão a prender-me e outra a agarrar a almofada... deixa-te ser apenas, encostada. Tenho medo de sair com a boca daqui, saber que o sol vai nascer e que outras pessoas vão acordar e interromper o respirar.... deste quarto.... contíguo ao teu, deste quarto onde ocasionalmente dizes ao teu marido que o amas. Se a tua alma falasse...

A minha alma fala. Lambe-me. Lambe-me e depois fode-me mas cala-te por favor. Não fales sequer do meu marido, não fales da tua mulher, não fales de nada, abre-me as pernas e apoia os meus tornozelos nos teus ombros. Entra devagar, peço-te, mas depois desobedece a tudo o que te disser, quero que sejas o diabo em forma de pessoa, quero que sejas alguém sem alma, alguém que não diz absolutamente nada e o único som que faz é urrar. Não te quero amar, quero-te quente cá dentro e a cair com um peso enorme sobre mim sem sequer me abraçares. Odeio-te. Por que me fazes isto de me quereres tanto? Não páres, não perguntes se me está a doer, tu és e serás sempre o outro e o único. Agora.... vem-te, por favor, agora querido....

Acho que vou morrer agora... não aguento mais, vou morrer dentro de ti,
não aguento tanta beleza a esta hora da madrugada

domingo, 14 de outubro de 2012

Somos Todos Gregos, somos todos Espanhóis, somos todos Portugueses



Ele: Corte-me um dedo, por favor. Ela: Desculpe?!
Ele: Foi isso que ouviu, corte-me um dedo… por favor.
Ele, de trinta e poucos… muito poucos, com uma camisola de gola alta preta – a quem possa interessar a indumentária - surpreende a morena perfumada de mais, saltos altos, triste e perplexa, de joelhos colados. Separam-nos um balcão.
À hora deste diálogo, os hotéis de Macau continuam sem janelas, por causa dos possíveis suicidas que perderem ao jogo nos casinos.
O homem, recentemente casado, com alguns móveis ainda nas caixas pintadas a subtítulos em Sueco lá por casa, começa ele próprio a estranhar o procedimento de quem o atende.
Os joelhos da senhora com três filhos em colégio privado – em breve um deles começa a estranha aventura da escola pública -... os joelhos abrem-se no pouco espaço da saia travada. A morena, a senhora, a senhora morena levanta-se e fala com o gerente. Queixa-se de “um louco”.

Ele tira um dos brincos, porque não usa aliança, e coloca-o no balcão: É de prata.
Está a falar sozinho. Aliás, fala já apenas com o rasto de perfume.
Ela volta: Desculpe, o senhor continua com brincadeiras e eu chamo o segurança.
Ele: Olhe para mim, acha-me louco? Não se lembra dos recibos com os meus ordenados? Não se lembra de mim… é natural. Mas da minha esposa com certeza lembra-se: Uma negra com cabelo enorme, um sorriso lindo, desculpe mas é lindo… recorda-se?
Ela, sem expressão: Não!
Ele, finalmente percebendo que não fala com gente real: Engraçado, não se lembra e o vosso slogan é “Conncosco as Pessoas Contam”
Ela, assustada e segura de que a razão do mundo está consigo: Slogan, que slogan?! Olhe, não falamos a mesma linguagem, definitivamente.
Ele: Estou simplesmente a mostrar-lhe que não tenho razões para ser um aldrabão, para não pagar o meu empréstimo do crédito habitação… disse os termos correctos? Crédito habitação?! Corte-me um dedo, porque eu não tenho mais como pagar o empréstimo. É o meu sinal de compromisso. Haverá coisa mais preciosa para mim? Lembra-se da minha profissão… agora lembra-se com certeza!
Ela: Ouça…
Ele: Aceite… aceitem o meu dedo como compromisso e símbolo de honra. Concedam-me mais um tempo e eu volto a pagar a mensalidade. Conseguirei ganhar ainda mais dinheiro mesmo sem um dedo.
O Segurança, de gravata suja e camisa mal engomada, mas com tom de voz firme: Tem de sair, por favor?
Ele: Deixe-me falar com o gerente, ele já me viu ao vivo…
Ela para o Segurança: São cada vez mais estes loucos…
Ele, cansado: Ouçam, a sério… chamem o gerente. Ele conhece-me. Aceitem o meu dedo, por mais louco que vos possa parecer.
O Gerente, com todos os estereótipos que queiram colocar: Senhor… então? Como vai isso, para quê isto tudo? Sente-se, sente-se. E então, tem tido público?
A conversa era mais estranha para quem a ouvia. Se havia loucos.... agora eram dois.
O Gerente, com a calma de quem fez o mundo e não soube como o mundo viria a ser… este Gerente de barba aparada a pente dois e óculos de armação tigresse: Ouça, vou dizer-lhe o que habitualmente digo aos meus filhos. Durante muitos anos os papás pouparam para não terem de pagar as...
Ele: Que conversa é essa...?
O Gerente: Vá, não se exalte. Sabe bem que temos nós de apertar o cinto, agora somos todos gregos. 
Ele: Mas eu vi o nosso ministro dizer que não éramos gregos…
O Gerente: Siga o meu conselho... gente mole acaba como eles. 

O gerente sai para almoçar. Simplesmente. E aparentemente simples não é?
O homem não percebe nada e sente que o gerente não percebeu também nada do que ele pretendia dar. Sai da agência bancária, atravessa a rua sem olhar para a esquerda nem direita.
Ele, na loja de penhores: Quanto conseguem dar por um piano?
O Empregado: Depende. Vamos preencher uma ficha. Nome e Profissão?
Ele: Nome está aí no Bilhete de Identidade. Profissão… músico... Pianista. Mas não vou precisar mais do piano. Dos dedos sim… vou reinventar-me.
Empregado: Pode repetir?
Ele: Nada… nada. Para lá de Pianista sou louco.
E os hotéis de Macau continuam sem janelas, por causa dos possíveis suicidas que perderem ao jogo nos casinos.

sábado, 22 de setembro de 2012

Here Comes The Sun


Num dia de Abril o George Harrison apareceu no jardim do Eric Clapton e antes de dizer, fosse o que fosse, começou a tocar numa guitarra nada vaidosa uma canção nova: Here Comes The Sun. O Clapton disse que aquilo o fez ficar “tão bem consigo mesmo, que sentiu o sol mais quente do que antes” nesse dia de Abril. Mais. Que só o Harrison, o George, poderia fazer “aquilo”. Dias, semanas, anos depois (parecendo a frase uma historieta de um mau filme da Disney), o Beatle encontrou a mulher num jardim com Eric Clapton. Quando percebeu o que se passava - rufar de tambores – perguntou: “Vais comigo ou com ele?”. Ela, Mulher que nos assusta a todos pela independência: “Vou para Casa!”. O George Harrison cantou centenas de mantras até lhe doer o maxilar para afastar a raiva. Hoje, quando muitos se despedem do verão, eu entoo mantras mas não quero afastar a raiva nem o amor que tenho dentro de mim. Tenho um amor dentro e perto, “à beira”… como diria uma auxiliar de educação do infantário da minha filha. Ah, tanto tempo em que pensei duas vezes em dizer “a minha filha” por medo de vaidade. Mas é tão bom, é tão boa… a frase e a filha. Os meus mantras entoados contra o governo, contra a crítica e as críticas todas que carregam ao colo e chama talentosos aos vulgares que, coitados, querem ser apelidados de qualquer coisa… e são. Mantras contra o empreendedorismo, mercados… os mercados, contra o processo criativo, o absolutamente tutelar, o absolutamente que não diz nem sim nem não, contra o analista, o dentista que diz que não me pode estar a doer, contra o cluster, a comissão executiva, a comissão de acompanhamento, a comissão parlamentar, a comissão Comissão, a pulseira azul no advogado que coordena as comissões todas… a pulseira azul para dizer que é humano como os outros e que não é só um discurso injectado e um fato que custa mais do que um mês de ordenado dos que o elegeram como deputado. Mantras contra os assexuados que têm medo dos elogios, contra os que escrevem composições sobre a primavera e o outono e depois dizem aos filhos como se deve escrever, sim, falo de adultos. Mantras contra os mantras, contra o clube de futebol, contra as bicicletas nos passeios, contra os carros nas estradas, contra as pessoas nas casas fechadas com medo de sair, contra o respeitinho e aquela frase: “a liberdade dos outros começa ou acaba” e tal e tal, e já agora contra o “tal e tal” e o “querido” que não é sentido. No fundo, é tudo um caralho. Sim, essa gonorreia de palavra que não faz mal a ninguém e que é às vezes profundo desespero e salvação. Porque as pessoas deixam de ter medo das palavras e escrevem gatuno e gritam gatunos publicamente, nas ruas. E soa bem não soa? Hoje, tudo começou com uma música do George Harrison, e vocês sabem melhor do que eu que o Outono e o Inverno são tão belos e quentes como as outras estações. Tudo começou num jardim como a religião, olha que engraçado, e a história não acaba aqui. Não acaba mesmo! Porque quem não tem talento não ficará para a História, da crítica ninguém se lembrará, os clubes de futebol ainda são democráticos porque o dono da bola é o povo da bola que com lenços brancos derruba quem não gosta, mesmo que o que venha a seguir seja pior, mas derruba quem não elege e quem elege. Os mercados e o empreendedorismo duram até aparecerem outras palavras absolutamente tutelares. Talvez Caralho seja. Talvez caralho venha a ser uma dessas palavras. Não peço desculpa, não pedimos desculpa pelo gatunos, pelo amo-te, pelo quero-te, pelo fode-me, pelas palavras que sentimos. As palavras sentem-se? De que maneira. E queimam como dizem os poetas… ou a poeta. E já agora, espalhem a notícia como diz o cantor. Digam que tenho tanto amor dentro de mim que destruo o primeiro energúmeno que me aparecer à frente a dizer o contrário. Temos todos não temos? Rua! Rua caralho que acabar em Inglês fica sempre bem…. Esperem, tenham cuidado com o amor, mas vivam-no a cada esquina porque nada mais importa, o resto vem por acréscimo. E o amor nunca vive acima das nossas possibilidades. O amor nem sequer é uma possibilidade. O amor é! Here Comes the Sun…

domingo, 19 de agosto de 2012

Parabéns a Vocês

Quando fiz 15 anos a 15 de Agosto os meus pais acharam qua a coisa era para festas decentes e... levaram-me a um passeio por buarcos e pela serra da boa viagem, na figueira da foz. Bem.. parece tudo normal, mas eu queria velas, amigos, a minha língua com outras línguas e não estar com os meus pais... se possível. Pois... afinal de contas era o meu, o meu, o meu dia de anos. Amuado, mal agradecido, sozinho num banco de trás de um datsun. Assim foi o fabuloso aniversário. Na altura, pelos vistos, não podia escolher e hoje posso. Não escolhi nada de especial este ano... costumo dizer: "surpreendam-me". E foi o que fiz. esperei na cama. Depois no sofá. Depois na mesa de jantar ao jantar. Depois ao deitar. E tive algumas surpresas, ainda que as aguardasse em sonhos do quotidiano. O que não contava era emocionar-me com as pequenas coisas. Surpreendi-me então comigo, eu pequena coisa também: Não tive medo de morrer. Não estive cansado. Não estive eufórico. Não dei importância a coisas que não devia dar importância. Como o mais tonto dos mortais olhei o indicador de solidão que tinha mensagens e que eu atendia quando tocava e, mais, limitei-me a ficar feliz - sim, essa palavra bacoca e inutilizável para bons textos-... feliz por quem me ligava, me escrevia e se dava ao trabalho de perder cinco segundos. Ora caramba, se eu sou cinco segundos na vida de alguém isso é muito especial. E foi no facebook - outra palavra inutilizável para bons textos e já agora para boas canções -... com muitos de vocês a escreverem uma só palavra ou um só beijo que me emocionei também - a emoção da era digital -... palavras escritas desde os amigos de infância à adolescência, de escritores que admiro a colegas de trabalho, que não podem ser outra coisa se não amigos, dos fazedores de cores aos mal empregados num país desempregado... desses a todos os outros eu fui cinco ou mais segundos. E hoje eles... vocês... por causa da minha deficiência emocional, são pelo menos cinco segundos todos os dias para o resto da minha vida, agora mais curta, mas sem viagens no dia de anos dos meus filhos à serra da boa viagem. Pelo menos não num datsun.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

quando era pequeno.... e era do Porto

Tinha 11 anos e era do F.C.Porto. Tinha-me mudado de terras do Sado para terras sem mar e só com montanha. 1987. Todos eram do Benfica e do Sporting. Então lembro-me de mudar um ano antes para o Porto, o clube, sempre torcendo ligeiramente pelo Sporting. Dizia que era dos dois mas ser dos dois era lá possível. No dia da final, quando brincávamos com duas pedras a fazer de baliza, éramos todos jean marie le pfaff ou mickel Lund, mas sentia um arrepio na espinha com as arrancadas do Futre os marabalismos do Madjer. Aos 11 anos não acreditava que ganhássemos, mas ser criança é não sofrer muito por antecipação e gozei e delirei na mais bela final de sempre de uma taça dos campeões europeus. Lima Pereira e Gomes não jogavam, mas tinha o sonho, e viena… a final, foi linda. Festejei na cama com um sorriso imaginando como seria a festa na cidade onde hoje vivo, até porque não havia canais e canais a mostrarem a falta de dentição dos adeptos que quisessem berrar e gritar para um câmara… mas deve ter sido um espanto, entre os que tinham dentes e os que não os tinham porque em 87 tínhamos ilusões mas já aí vinha Cavaco Silva e, mesmo com os fundos europeus, placas dentárias não era bem a coisa a investir. Enfim. Um ano depois vi pela primeira vez um jogo nas Antas. O paco llorente fez-me chorar. Fomos eliminados pelo Real Madrid. Os anos passaram. Larguei a bola aos 15, a que jogava e a que via, viajei em exclusivo na música e na anestesia e depois, quando conciliei sem vergonha o futebol com o que queria fazer e ser já muita gente era do F.C. Porto. Voltei ao sporting, ao eterno sofrimento, a não querer saber e a desesperar. É mais poético. Vim para o Porto viver, e o Porto clube não parava e não pára de ganhar. Acho que sou sempre dos outros, talvez daqueles que não ganham tanto. Hoje percebo porque nunca voltarei a ser do Porto futebol…. porque sinceramente acho que não se consegue fazer o que o Barcelona e o Bilbau fazem contra o centralismo de Madrid. Aqui mandam-se bocas, aqui diz-se que se vai a Lisboa "varrer uma feira e partir tudo", aqui… por mais razão que existam às vezes, a razão perde-se. Para mim, o meu porto… a equipa… é a que na Áustria em 1987, com maioria de alemães nas bancadas, mostrou ao mundo que a magia não precisa de muito dinheiro. Hoje precisamos de um calcanhar. E quem este país elegeu não permite cá artistas que inventem truques e façam magia.

domingo, 15 de abril de 2012

O Cozinheiro e as Comédias do Minho

Era tanta estrada que não se via chuva ao início e depois tanta chuva que não se via estrada alguma. Só teríamos de encontrar o restaurante O Cozinheiro e seguir em direcção a Verdoejo. Destino: a loucura. «O Esmagador de Uvas», das Comédias do Minho, a minutos de começar no auditório daquela localidade de Valença, quando o Mercedes abrandou no seu capitalismo encantado pelos melros e assustado com o cão sem raça, que se lançava contra a rede em fúria. Nem o GPS, nem o Mercedes nem nós encontrávamos O Cozinheiro. O 118 forneceu o número mas ninguém d’ O Cozinheiro atendeu. O Mercedes, apaixonado entretanto por uma Toyota caixa aberta, encontrou o que nos faltava na rota e entrou no parque reservado ao restaurante. Ligam-se as duas televisões e o cozinheiro… o cozinheiro “desce já”.
- “O que é mais rápido? Tudo. Basta escolher”.

 Mas o cozinheiro não desce. Na lista, ao cimo da lampreia e do bitoque, uma fotografia com o logotipo do restaurante: o próprio cozinheiro, de chapéu e bigode. E o telefone toca:

-“Tentou ligar para este número?”

Era o cozinheiro, ele mesmo!

- “Sim sim, estamos aqui mesmo na sua sala de jantar, mas queríamos ir ver uma peça de teatro e temos já pouco tempo. Já aqui estamos na sala de jantar há um quarto de hora”
-Tudo bem, escolham, mas querem jantar é?
????
Quer dizer, querem jantar agora ou mais tarde?

- Mas estamos aqui na sua sala de jantar?
- Olhe, a sério, o que é mais rápido?

- Qualquer coisa, basta o cozinheiro descer.
E nós decidimos, antes de nos tornarmos no próximo prato, já sem fome e atrasados como sempre, que seria a cultura a alimentar-nos. Cultura não enche a barriga? Ai isso é que sim!
Um cenário pequeno e perfeito, uma tontice tão deliciosa e sarcástica sobre as disputas entre vizinhos, sobre a inveja e sobre os prazeres e os negócios do vinho, uma coisa assim daquelas que nos fazem lembrar que se pode rir no teatro, bater palmas a meio, comentar e comer com os actores no fim. É teatro. E o teatro é do povo, há quem não se lembre nem se queira lembrar disso. E este tem Shakespeare, hits de todos os tempos, História e histórias. E o povo de Verdoejo, que também tem actores e gente que faz a revolução a sério todos os dias contra o sistema, esse povo não perdoa e para lá de ir ao teatro, oferece empanadas, bolo de chocolate, vinho e cultura para debater e rebater.
Quanto ao cozinheiro d’ O Cozinheiro envio-lhe um sincero abraço. Mesmo que não desça ou que não possamos jantar, encontramo-nos no teatro das Comédias do Minho. Acredite que vale a pena.

domingo, 8 de abril de 2012

o Além... mais do que o normal... não se assustem

Sonho mais vezes em fumar do que em morrer. Deixei de fumar… ainda não consegui deixar de morrer. Esvazio a cabeça e durmo e enquanto durmo sonho… com outras coisas, mas também com estas de que vos falo. Ontem – sempre será ontem quando pensarmos hoje nestas palavras - … ontem garantiram-me existirem “cidades harmoniosas do outro lado, e quem está desse outro lado não sente vontade de regressar”. Lá, a arquitetura é perfeita e não precisa de ser contemplada com prémios, serve apenas a beleza de um mundo que também vivem da estética e de como para ele se olha. Soubera disso antes e já me tinha deixado levar. De certeza que ao deixar-me levar me deixava de preocupar e… ao deixar de me preocupar deixaria de morrer. O que me dói mais na vida é que insisto em ser simpático com ela, abandonando-me quase diariamente a deliciosas e parvas esperanças de eternidade. A voz da senhora ao telefone, eu a imaginar-lhe os lábios a moverem-se num vai e vem de hálito a caramelo; A birra da criança que estanca para depois correr para o colo de alguém; A frase do burocrata a soar a poesia; O poeta a escrever sobre a justiça; a justiça a tornar-se independente; O teu beijo diferente todos os dias, diferente todos os dias com a mesma língua; Nos feriados ninguém morre, na minha cabeça. É um dia demasiado aborrecido para isso. Isso de passar a viver noutra cidade. Já tenho as malas feitas, já mudei oito vezes de casa, vinte vezes de amor e duas vezes de clube… mas como diz uma amiga a quem a morte rondou um destes dias - infelizmente às vezes sem intermitências - “mudei-me para dentro de ti”. Eu consigo dizer que dentro de ti é impossível mudar de amor e impossível morrer. Acho que se voltar a fumar não te importas.  

sábado, 31 de março de 2012

afoga-te

Meu amor… há um mundo ao contrário e eu estou afogado, a respirar. As árvores que vês espelhadas no rio são as árvores onde faço corações com as nossas iniciais. Há amoladores e o canivete que trago é afiado para desenhar e para tirar as tripas aos peixes. Só aos maiores, os de comer. Só aos maiores porque eles comem os mais pequenos. Os bichos hexagonais que flutuam no teu mundo aqui… andam à volta dos candeeiros de tecto. Pergunto-me se é para fugirem ou se gostam de viver de costas para as coisas. Vem para a água e fecha os olhos. Não te vejas ao espelho, deixa-te vir. Afogados no meu mundo passamos a estar afogados no mundo… porque o mundo a dois é de todos.  

segunda-feira, 5 de março de 2012

Ela não pode fazer fast-forward ao coração

Não posso. Tenho que passar por isto. Não posso fazer fast-forward ao coração.
É ela que o diz. Nunca eu usaria imagem tão bela, porque passei a vida a fazer fast-forward, stop, pause e play.
Ela passa por isso como passei eu, como tu, como o senhor e a senhora o menino e a menina. Pelo menos enquanto não houver débito directo para a dor. E enquanto não… dói. Sempre. Mas não temos de passar por isto pois não? Isto… o quê? O amor o desamor, o encontro o desencontro, o aperto no peito a vontade de vomitar? Isto… o quê? Chorar não conseguir chorar? Respirar ter falta de ar?

“Um leão morreu dias depois de a fêmea ter sido abatida”.
Billie Holiday canta the man i love e bebe, passa por isto e nem sabe o que lhe passa ou o que lhe pesa mas… mas é tão belo o sofrimento que lhe sai da boca. Não faz fast-forward ao coração.
A notícia do leão no zoo de uma capital qualquer do Mundo tem direito a duas colunas e fotografia. “Até os leões amam” titula o diário na página de curiosidades.

Pause: A vida não segue… silêncio.
Play: Dói como tudo, dói não ter nada.
Rewind: Isto fica por aqui!
Isto o quê? Isto o quê se isto nunca foi nada!
Fast-Forward: Nunca pensei voltar a sentir isto…
Isto o quê? Isto… o quê? Alegria falta de fôlego dor de barriga falta de apetite não ter sono voar sem saber se vai aterrar.

Pode começar e acabar no Reino da Utopia onde existe vida para lá da morte também para os leões. Nesse reino não existem jornais com curiosidades.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Medo de Mim. E Vocês?

Já estive numa prisão. Numa penitenciária. Num estabelecimento prisional. Já me masturbei a pensar nas relações entre mulheres em estabelecimentos prisionais. Tenho um grande amigo que é guarda prisional e não foi mais o mesmo depois de ver um enforcado. A melhor peça de teatro que vi na minha vida curta foi em Paços de Ferreira, no estabelecimento, o prisional. Tragédia grega. Ninguém tinha cara de assassino. O encenador Nuno Cardoso gritava-lhes e eles não respondiam. Voltavam às celas e depois ensaiavam. A estreia teve guarda anti-motim. Tive medo. Mas eu conhecia-os. Mas nunca se conhece ninguém pois não? E eu tive medo mesmo depois de muitos ensaios a que assisti. Numa passadeira a luta corpo a corpo, a luta da tragédia grega era a valer. Tudo se descarregava naquele palco / passadeira vermelha. E depois fomos todos para casa e eles continuaram lá. Continuou o que se apaixonou “por uma agarrada”, o que assaltou a bomba de gasolina, o que “desgraçou a vida por causa do cavalo” e o que arranjava televisões. Esse, o mais talentoso de todos aqueles actores. Não lhe tocavam apesar de o dele ser o maior dos crimes ali. Mas ele arranjava as televisões. E era um actor incrível. Não sei se ainda o é. Foda. Pensava em voltar a eles e de repente estou numa gala – a de que falei no texto anterior com sarcasmo – com negros e miúdas loiras, negros e morenas à minha frente. Músicos de Hip Pop dizia eu. Pois… sou perfeito a adivinhar digo para mim mesmo. Sempre. No palco eram alegres, contagiantes, tinham nomes, óculos escuros e eram são serão actores. Hoje revi as caras deles, as caras que estiveram quatro horas à minha frente a levar com aborrecimento e arrotos elegantes da sopa de pântano ao jantar. Hoje vi-os reclusos de Vale de Judeus. Tive medo. Mas só hoje tive medo! Porque ontem eram músicos, certo? Têm músculos, histórias de arrepiar, são mais novos do que eu e os palcos que vão pisar serão enormes sempre. Tenho medo de os ver de novo ao pé de mim, medo de os não reconhecer, medo de os ver como eles não são. Não são reclusos. Não são músicos. São actores. Tenho medo de mim. E é de mim que devo ter medo. Quero voltar a Paços e saber do elenco da Oresteia, voltar a sentir o medo de estar nervoso por eles e me arrepiar. Quero ir a um lugar fora de Vale de Judeus, esse lugar sem que a prisão me prenda enquanto vejo apenas e apenas teatro.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Ressabiado na Gala. ui...

Devo deixar aviso prévio: o que escrevo e o que me move é ser um profundo ressabiado… mas realizado com o amor, sobretudo. Amor, esse lugar-comum que continua no top das coisas mais importantes da vida… outro lugar-comum. Posto isto, acrescento que eu sou também o alimento das coisas de que não gosto ou não gostamos. Perdoem-me. O que desboco por não ter dormido é uma espécie de desabafo sobre o pequeno mundo em que pessoas invejosas como eu merecem viver. Um destes dias fui à minha primeira gala. Muito critiquei the Oscars, as passadeiras vermelhas e os Globos de Ouro… da SIC entenda-se. Mas devo dizer que, no que toca a reconhecimento, tenho de admitir que os Globos de Ouro… os da SIC entenda-se… separam convenientemente categorias e, se é para brincar a Hollywood, eles sabem brincar muito melhor do que a gala da SPA a que assisti durante quatro horas com o rabinho no mesmo assento, confortável entenda-se. Fui porque o programa para o qual trabalho com muito orgulho foi nomeado para os prémios e destilo agora tudo porque…. não ganhou. Se ganhasse, o programa para o qual trabalho e onde me sinto bien bien bien, pensaria tudo igual mas não o diria, tenho quase a certeza. Portanto sou uma merda. Disso nunca tive dúvidas. Mas sou uma merda divertida que sabe brincar consigo próprio(a), da hipocondria à distracção, do tamanho dos pés à ignorância. E sou também uma merda transparente, não faço mal a ninguém e sou um menino pequenino num corpo de um tipo com 36 anos.

E então sobre a minha primeira gala? Uma palavra para o meu primeiro jantar de gala: uma sandes de frango Havai da Galp e uma sopa de pântano. Mudança de roupa no carro, nada de gravata, barba com certeza e lenço para o pescoço… com certeza. Depois, e já no CCB, uma perna ou outra que me desperta a atenção, a vontade de beijar o Bruno Nogueira, o Nuno Lopes ou o Valter Hugo Mãe (sobre as mulheres não falo e é verdade que não as gosto vestidas como nos casamentos…, lembra-me sinos e arroz para cima das pessoas… mas sim havia algumas poucas bem bonitas…. deixo os comentários para a sapiente e elegante pipoca mais doce)… o Valter Hugo Mãe e… e os outros que tinha vontade de beijar beijei, porém o Eduardo Lourenço fugiu-me.

Então e os prémios? Ainda bem que perguntam! Detesto perder. Fiquei a saber que Coimbra é uma cidade do Norte, conheci livros para a infância que julguei não existirem, percebi que somos um país de muitos autores e poetas mas que, de facto, não deve existir muita poesia e que teatro bom não o há no Minho, no Algarve, na Beira Baixa, no Alentejo, em Trás-os-Montes... ou até no Porto. Pois, mas conheci melhor ao serviço do programa para que trabalho As Comédias do Minho, a Palmilha Dentada que recusava ver por desinformação e tantos outros trabalhos entre enormes trabalhos que não cabem aqui, mas que cabem num país pequeno. E sim, gosto da Cornucópia, do Luís Miguel Cintra e do Sangue do Meu Sangue… muito, e dos actores do Sangue do Meu Sangue.

Arrotando baixinho e com toda a elegância a sopa de pântano e o frango Havai, delirei quando os miúdos à minha frente – que por preconceito achava nomeados para melhor banda hip-pop – foram os vencedores para melhor peça de teatro. Apesar do centralismo da crítica e do júri, apesar de não perceber o que é entretenimento e o que é informação, apesar de não perceber o que é música - como muitíssimo bem perguntou Catarina ao maestro com o Emanuel ali ao lado a poder responder-lhe – apesar de isso tudo, foi lindo ver a alegria de todo um grupo em palco, sem hipocrisias a vibrar com reconhecimento. Falo dos miúdos da melhor peça de teatro.
De resto, tenho mensagens: João Reis sobe uma oitava. Catarina não te digo nada. Alexandre Almeida, o Kameraphoto deveria ter ganho para eu me sentir parte de Portugal, mas obrigado João Pina pelo teu discurso contra a censura, o esvaziamento das Redacções e o Jornalismo Low Cost crescente. Sabes João, as pessoas tiveram de olhar umas para as outras a pedir autorização para palmas, embora quisessem muito batê-las, as palmas.

Mensagem extra: Malta de Coimbra que sabe que a vossa cidade a nível cultural autárquico é um marasmo – perguntem aos artistas de Coimbra se não é verdade – malta, por favor não invadam a SPA em protesto pelo prémio porque para o ano há mais e não estaremos lá. Queres tu ver que para o ano sou nomeado para o melhor pano de cozinha ao pescoço!!!


P.S. A minha consciência disse-me para não escrever isto. Mas juro que sou boa pessoa e que daqui a pouco volto a tentar escrever coisas fofinhas com flores e amor, com arco-íris que também têm preto e com sonhos de mãos de tesoura com mundos de algodão.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

o oitavo de página

Preciso recordar a imagem. Os olhos são pretos, o cabelo é liso e curto, os lábios semi-cerrados ou semi-abertos como que a rimar com fruta. E não sei por que disparate penso que eles rimam com fruta ou com uma fruta qualquer que seja, uma específica que possa exemplificar. A vermelhidão no amadurecimento dos morangos, o laranja de um dióspiro a derreter, o laranja de dentro e o de fora… talvez porque os lábios dela me apeteçam na imagem como qualquer coisa que apetece trincar ou provar frio. Fruta fria… não como sobremesa açucarada com pacote. É o doce natural de sentir a textura e querer lembrar-me da imagem toda e enquanto o quero fazer, enquanto a quero beijar sabe-me a fruta no pensamento. Mas não posso. Não posso de vergonha e lamento tê-la já perdido faz 21 anos. Eu era um menino que mal sabia ler. Que mal sabia se era homem ou mulher, se era mulher ou homem, se era as duas coisas não sendo alguma delas em particular. Preciso recordar a imagem toda para que se me preencha o peito de ar gelado a entrar, misturado com o aroma de pão de água acabado de sair, pronto para vender. 

A confeitaria assina o mesmo jornal há três décadas, pelo menos. Há 21 anos mal sabia ler e escrever e ainda não andava pela cidade onde confeitaria é palavra para ser levada a sério enquanto o jornal envelhecia e se amarrotava nas mãos de todas as idades desta rua. O jornal pousado na arca dos gelados. Verão e Inverno. É Fevereiro, é Inverno mesmo que as estações desapareçam com as alterações climáticas.

Não sei o nome, não quero ver o nome. Foi o primeiro dos desejos fotogénicos a sério. Porque achei poder tornar-se real, ao contrário das mulheres das revistas para adultos consumidas por adolescentes e por mim adolescente e pré-adolescente. Essas nunca são reais. Ela sim. Ela poderia aparecer a qualquer esquina, a qualquer espera de um verde para peões, a qualquer saída de pão de água. A paixão por aquela cara que não se amarrota com o andar da vida é anterior a tudo o que sabia sobre jornais e anterior à atenção que se deve ter nas coisas à volta da coisa que queremos ver.

12 de Fevereiro deste ano. Ela está ali próxima dos meus cotovelos e agora a seguro da agitação feliz da minha filha que não pára de cirandar a pedir húngaros à senhora do balcão. A imagem, não a recordo toda… apenas os olhos e a boca semi, semi… Não quero olhar. Deixá-la estar assim aconchegada que eu continuo fixado na página par. Preciso recordar a imagem para lá dos olhos pretos e do cabelo curto, por que se não a recordar vou ter de a espreitar … de novo. Tenho a certeza que permanece a mesma, como que à minha espera. E eu a crescer ou a minguar.

Os pais mantêm o oitavo de página. Quando a julgava apenas uma menina mulher, deliciosa e ternurenta que se me apresentava, na minha inocência, como vaidade de pais de província que mandam publicar fotografias dos filhos assim que concluem a licenciatura … quando a julgava assim vaidade dos pais, assim menina mulher, deliciosa e ternurenta ela… já não era. Ela já não Era, do verbo ser… existir.

12 de Fevereiro. Passam 21 anos sob a morte dela. O obituário tem hoje cruzes e anúncios a saldos de missas de sétimo dia. Já é perfeitamente identificável. Há uns anos talvez não. Provavelmente vi apenas uns olhos pretos. O negócio da igreja com os defuntos ou o design monstruoso, destinado a convencer quem pague os anúncios, fazem o leitor saltar as páginas ou escrever comentários absurdos: “os que deixaram de fumar”.

Para o ano não sei se estarei nesta rua, nesta confeitaria de pão e de costumes, e não sei se o jornal se venderá. Mas ela vai ter 22 anos, 22 anos após a sua morte. E de cada ano que passa e que nos amarrotamos ela parece ter sempre a idade dos números por cima da imagem. Vou comprar um húngaro para a minha filha e levar, comovido e apaixonado ainda, a boca semi-cerrada, semi-aberta, o cabelo curto e o delicioso e ternurento olhar de uma página ímpar. A página mais importante do dia 12 de Fevereiro de cada ano… por todos os anos.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Manuel António Pina e o agente Villares

Dias antes de me mudar para a minha vida eterna, o apartamento onde vivia foi vandalizado. Levaram uma Handycam, um afinador de guitarra e abriram uma garrafa de vinho tinto. Ainda não sei quem, ainda não sei quem foi nem desconfio e foi a única vez que me entraram em casa para roubar qualquer coisa que não fosse um fluido ou um pouco de coração e neurónios. No entanto, e por entre a natural atrapalhação dentro dos géneros descontraído e resignado com que encaro este tipo de pequenas fatalidades, esperei que os agentes da autoridade vissem o apartamento e anotassem a queixa – desculpem mas não sei o termo que vos deve estar na ponta da língua – para que eu pudesse ir à minha vida e descansar noutra cama que não aquela, remexida sabe-se lá por que mãos e com gavetas vazias espalhadas por sobre os lençóis. Onde pretendo ou antes a quem pretendo chegar é a um dos agentes da PSP que logo suspeitou ser a acção larápia do gang de Pedro Hispano – a rua deve ter ficado mais famosa – e disse-me que “raramente os bens são recuperados”, o que ia de encontro à minha resignação. Já de encontro à minha descontracção foi a atitude dele, a do agente, que depois de olhar a estante com meia dúzia de livros… “O que vale é que estes tipos não perceberam o mais importante que tem aqui”.

Eu não queria acreditar, até porque o meu preconceito - muito por culpa da imagem que a própria entidade vende no dia-a-dia - não me permitiria pensar que o senhor agente achasse que livros como «Kaputt», de Curzio Malaparte ou a «Montanha Mágica» do Thomas Mann… creio terem sido os livros que ele reparou, fossem “o mais importante”. E ali estava um agente a falar comigo, sem me olhar como suspeito e a referir que também tinha nascido em Angola, depois de ver o meu Bilhete de Identidade. “Sabe, sobre as colónias existe um autor fantástico… Kapuscinski”. Pois que eu já tinha ouvido falar mas não conhecia bem e que me desculpasse a ignorância. Os minutos foram demasiado rápidos para quem acabava de ser vítima de qualquer coisa.

Das poucas vezes que me cruzei com polícias fardados mais do que cinco minutos - mesmo aqueles que abriram a porta à minha amiga Marta quando ela num Carnaval, vestida de coelhinha de Tony Silva se esqueceu da chave de casa - nem mesmo esses que se portaram condignamente perante o rabinho dela de pompom foram tão inspiradores sobre o que para mim e muitos de nós deveria ser a nossa força de segurança, referindo termos precisos.

Hoje revi o senhor agente na televisão, num documentário sobre o enorme Manuel António Pina. Agente Villares. Assim se chama. O agente Villares é uma das pessoas que fala no documentário sobre o gosto pela poesia do MAP e cita poemas do Pina de cor. Fala deles às pessoas que se queixam na esquadra e pensa neles quando é chamado a intervir nas cenas mais reais e absurdas que a vida real tem. É sensato, é sensível e sabe o que é cumprir o dever. Não é, nem deve ser um exótico. É o agente Villares.
Num país que fez uma revolução com cravos, por que não uma força de segurança pública carregada de gente que saiba poemas suficientes para parar a os sangues dos automóveis ou as queixas das mulheres ainda estupidamente casadas? Orgulho-me de ter conhecido o agente Villares e fico vaidoso que ele circunde o meu bairro.
Continuo sem ler qualquer livro do Ryszard Kapuscinski.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Desempregados filhos de gente

Foi a primeira vez dela no Centro de Emprego. Esperou uma hora e foi atendida por uma senhora com óculos maiores do que a cara, com unhas sujas e uma pele de tal forma que se confundia com a parede atrás de si. Papéis, muitos papéis. Tecla "enter" várias vezes e as perguntas da senhora. As perguntas retóricas da senhora da mesma cor da parede:
"Técnica de Marketing não existe? Diz aqui que não entregou a monografia... Vai  tratar disso?
Conhecimentos de informática e Inglês… pode ser que dê, mas não chega pois não?
Sabe que tem de ir à Segurança Social?".
Sem sorrisos, sem esgares, sem…
Faltaram-lhe as palavras a ela para descrever a funcionária do Centro de Emprego como me faltam a mim no momento.

O segurança chama muitos nunos e sandros, carinas e iaras, neides e marisas. O segurança olha para todos como se fossem… desempregados. O regimento de Infantaria e Cavalaria aí está: "Recruta de seis currículos por mês, não pode recusar duas ofertas, visitas periódicas a sessões de esclarecimento". Vida ocupada a do desempregado.

Mas o segurança e a senhora da cor da parede estão tranquilos. Ele foi pai há pouco tempo. Ela... ela deve ser mãe de alguém. E sobre a mãe de alguém não devemos dizer que tem as unhas sujas  ou que é da cor da parede. Mas sorria senhora… vai ver que sobressai. Sorria mesmo que isto não esteja para sorrir, que eu também sei que vai trabalhar na terça-feira de Carnaval e no 5 de Outubro. Estamos todos do mesmo lado, somos todos filhos de alguém e quase todos pais de alguém. Sabe… os desempregados também.
Amanhã ela não volta ao centro de emprego. Mas a senhora que, caso sorria se destaca da parede, essa vai continuar até à reforma por ali. Não se vão ver mais estas duas.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

mulheres que amam como homens

Mulheres que amam como homens são belas, amam em lençóis alvos ou em sofás, no chão ou nos carros se preciso for. Amam geograficamente como as mulheres que amam como …. mulheres! Mas as mulheres que amam como homens despojam-se de toda a beleza, de toda a maquilhagem, de todos os leques e de todos artifícios que possam segurar o outro. Seja o outro homem ou mulher. Os homens são o que são. Generalizando, e não poderia ser de outra forma, só uma Leonor que não precisamos muito bem de saber quem é, de que interesses se move, de que paixões de alma necessita, quais as palavras que lhe saem da boca… só uma Leonor espantaria Camões com uma ode assim encantada a caminho da fonte. Mas o contrário… não me parece. Se o Paul Newman fosse a caminho da fonte ou do carro, da papelaria ou de casa, não haveria mulher que lhe dedicasse uma ode louca por mais que o achasse bom até aos ossos. Nós homens, ou pelo menos os tontos como eu, vamos amando desmesuradamente com os pés no ar a toda a hora e quando caímos, quando caímos choramos como perdidos, lembramo-nos da mãe e achamos que o mundo acabou. Elas choram por dentro. São mais subtis. E essa subtileza assusta na imperdoável luta pelo amor que domina tudo e faz girar o solitário e o preenchido. As mulheres que amam como homens são dependentes, nunca faltam e merecem tudo o que lhes for reservado. O pior é que ninguém gosta da dependência… e só uma mulher consegue aturar e ao mesmo tempo mimar o rapazinho mimado que já existe em nós, que não sabemos ser outra coisa que não vampiros do sexo ao carinho, da maternidade ao desprezo. A mulher bela, a que ama em lençóis alvos, está à espera de ser amada. E geograficamente, esta em particular, até pode amar na lua porque estará sempre com os pés no ar.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Hienas e colecções de cromos

Inevitável e estúpido. À minha volta, como à volta de muitos dos portugueses, gregos, brasileiros, angolanos e outros, há despedimentos. As pessoas e as famílias, os amigos e as crianças nunca dizem que se perderam “postos de trabalho”. Aquelas que eram a pintura das imagens de televisão banais e diárias sem a pachorra do telespectador (eu principalmente) atingem agora os que estão… à minha volta. Obviamente sinto-me instado a reclamar ainda mais porque me toca, isso mesmo. Devo dizer que ainda não chorei como quando vi as senhoras do Fundão irem buscar o dinheiro dos ordenados que lhes era devido. A representante das trabalhadoras, a representante das mulheres que trabalhavam, assim é que é, dentro do táxi a abanar o dinheiro para as outras que as esperavam ao longo da estrada nacional a bater palmas. A imagem é de «Mulheres de Força», do programa «Perdidos e Achados» da SIC (um dos poucos que me valia a pena) mostrou-nos o plano do interior do carro. Parecíamos, pela imagem do operador de câmara… parecíamos todos o Papa a ser recebido na mais católica das aldeias. Íamos à velocidade da imagem da justiça…. Às vezes ao ralenti, mas lá íamos.

À minha volta, nas mensagens privadas do Facebook, sempre longe dos blocos de informação da rádio, sempre longe das gordas ou magríssimas dos jornais, as pessoas são despedidas. Quem o ordena: Os licenciados de Harvard de Baixo, os maçónicos, os opus qualquer coisa, os opus tudo e mais alguma coisa, os políticos do Poder e os que já estiveram no Poder, os autarcas dos partidos com nome pronunciável à credibilização de um empréstimo bancário, sem fiador, à espreita para serem directores ou encaixarem em organismos que se alimentam da cobrança dos outros, as rémoras do tubarão. Demagogia é com certeza aquilo que escrevo porque o capital e os organismos são necessários, pois claro. Não digo que não, mas podiam ser organismos decentes! E quando estamos bem não nos lembramos.

Eu estou bem, e apesar dos despedimentos, da perda das rotinas que viciam mas dão pão às bocas, apesar dessas minudências, à minha volta também tudo vai estando bem. Finalmente percebemos que as empresas estavam à espera das palavras de um primeiro-ministro (em caixa baixa porque não merece outra coisa) e de um governo verdadeiro até ao tutano que dissesse que este ia ser “um ano difícil”. Esperaram… não como quem espera o orgasmo do amante que isso ainda tem amor e tem trabalho de mãos, de língua e de coração. Não, eles esperaram como quem espera um golo após o árbitro assinalar a grande penalidade em final de um Mundial. A forma como comemoram o golo é despedindo pessoas pulando de alegria nas costas das palavras “verdade” e “recessão”. As gorduras, as eternas gorduras estão a ser queimadas entre o calçadão inventado para os de sapatilhas de quatro dígitos e os ginásios com instrutores iguais aos do programa dos gordinhos. À volta dos que estão à minha volta, os que continuam empregados como eu - mas a fazer o que não gostam… ao contrário de mim - baixam a cabeça e labutam ou fazem desenhos a assinalar as tarefas das 14h00 e das 14h30 numa folha que só tem mentiras, e só podia ter: porque não conta o cocó das 14h15. Mas à volta dos que estão à minha volta, ou não lhes falam e vasculham como hienas as secretárias e gabinetes à cata de restos vivos e mortos ou comentam que deveriam ter acolhido a quase escravidão só por mais um ano até à reforma. Depois, há os que telefonam a toda a hora e só não se benzem e ficam roxos de espanto porque já não é prático, nem moda.
Amanhã estou eu à vossa volta, mas não me resigno ao inevitável. Isto é uma enorme contradição, mas a minha pobre licenciatura e o meu pobre ateísmo devem ser mais livres do que as colecções secretas de cromos e de fontes de informação para chegar lá… lá? Onde é que isso fica?

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Entra... Se tiveres entre 18 e 65 anos, exceptuando a alma do Luiz Pacheco

A proposta dela: “Um dia gostava de entrar na cabeça de um homem e perceber como é que funciona a coisa”.
Podes entrar. Não sou o melhor dos exemplos, mas posso ser um dos exemplos querendo, como qualquer outro, ser o melhor da sua espécie.
Vamos com poucas vírgulas e a acelerar. Três, dois, um…
A primeira imagem:
- Tenho cabeça de pila? Diz-me já! Sim ou não?
-  Claro que não!
-  Diz que sim!
- Sim tens, tens cabeça de pila.
- Ai tenho, então toma lá o esperma! (Cospe-me nos olhos comigo a rir para não chorar e ele e os amigos no chão em gargalhadas).

Mau? É pois. Mas agora vamos ver como foi na linguagem real… agora que já percebes como é este mundo. Entra.
- Tenho cabeça de pissa?
- Não, claro que não!
- É  melhor dizeres que sim se não já sabes que te parto o focinho!
- Sim, sim tens…
- Tenho o quê?
- Tens cabeça de pissa?
- Ai tenho, então toma lá a esporra! (Escarra-me para o olho comigo a rir para não chorar e os amigos no chão em gargalhadas)

(Acelerando e com menos pausas ainda)
Um sofá duas da manhã o único filme que dá tem linguados e é em Espanhol. Boa, tem uma mulher com uns seios enormes mas… eles é que se beijam!? Ela assiste apenas e eu fico chocado mas como não há mais nada a não ser aquela imagem é com aquilo que me masturbo. Aquilo, é parte de mim como é parte de mim o Godard e o seu Eternamente Mozart numa sodomia em ruínas na guerra dos Balcãs, como é parte de mim o aniversário das comemorações da Revolução Francesa com sexo de velhos com menores ou a pornochachada do Abel Ferrara com a Bambola e o Furio, um mundo de cabritos, violações e muita italianada. Aquilo é parte de mim como o Harvey Keitel a pedir à adolescente que conduz um carro sem carta para simular sexo oral. E vamos em dois ou três parágrafos dentro da minha cabeça e ainda só viste sexo. Mas já misturo Godard e Almodovar… sim, que o primeiro dos filmes e recordações com homens nos linguados é «A lei do Desejo».

(Acelerando)
O poster do Gullit, o caderno com a revista Bravo dentro e em Alemão e eu sem saber uma palavra de Alemão. Os New Kids on the Block e depois os Queen e o Spingsteen e depois os Doors e os Joy Division e depois os Sepultura e os Rage Againt the Machine, os Pantera, os Nirvana, os Nine Inch Nails e desacelera…. E o Antony, o Rufus, os Buckley e o Cohen.

Acelerando.... Tu na minha cabeça ainda, claro. A velocidade é a poucas vírgulas)
A máquina corta-me a cara e ainda não tenho barba. A máquina com duas lâminas corta-me a borbulha e tenho pelos raros. A máquina com três lâminas corta a barba e deixo de fazer a barba. Banho duas vezes por dia com água a ferver para acabar com o cilindro. Dinheiro emprestado e não interessa se é dos pais ou dos amigos, interessa ter dinheiro para ter coisas e ter coisas é ter alegria e ter alegria é ter tabaco é ter álcool é ter erva é ter coca é ter outra coisa qualquer mesmo que seja mentira porque posso estar a mentir ou a contar a verdade e… e se sou mentiroso sou muito bom, se não minto é porque sou autobiográfico e não sei fazer mais nada. Gostava de te deixar na dúvida mas se o fizer é porque estou a seduzir e a não ser genuíno e se o estiver a fazer é porque não estou feliz e então sinto que devo voltar às tristes citações esquecendo a escola primária e o beijo na cara da Cláudia. O beijo que me deixa vermelho e com o maior calor do mundo. A imagem a seguir-me aliás e eu é que a persigo para toda a vida como se precise dela para me alimentar nos momentos em que não tenho ninguém e aposto, aposto que serão muitos. Arre porra. Deixa-me gritar para me acalmar.
Já está. Ai.

Citação um: “Graças a Deus que sou Ateu”. Citação dois: “Escrever é um acto de carpintaria”. Citação 3: “Quando as gaivotas seguem o navio pesqueiro, é porque elas pensam que sardinhas serão jogadas ao mar. Muito obrigado”. O quê?! Citação de Eric Cantona, é bem verdade, e nunca vou descobrir o que ele quis dizer em conferência de imprensa com uísque e uma bengala de burguês, após um jogo em que agrediu um adepto. Depois sou o Tom Cruise a imaginar o marinheiro a fazer amor com a esposa (De Olhos Bem Fechados… o último do Kubrick) arranjando justificação para estar com uma prostituta. Ninguém imagina melhor do que um homem para se sentir traído. Ninguém arranja desculpas melhores e mais estúpidas para si próprio do que um homem. Sou o agressor do quarto andar e sou o Clive Owen a perguntar à orelhuda da Julia Roberts se, entre ele e o bonzão do Jude Law, qual escolheria como melhor foda? Queremos sempre saber se marcámos as mulheres. Sempre. E se fomos os melhores? E comparamos o tamanho dos pénis e temos carros potentes com música alta como se eles fossem o prolongamento dos falos e… esperem… eu não! Eu não que tenho o pénis pequeno e passo a vida a inventar metáforas para justificar que o tamanho não importa. E continuamos com o sexo, desculpa. Mas se não for assim vou ter de dizer que fui o Balboa no Rocky IV, que fui o Slash na November Rain, que fui o Madjer de calcanhar e Maradona com a mão, que fui Bruce Lee e Elvis e isso, bem, isso sinto que não me ia ajudar contigo, por isso passo e guardo para mim como guardo o dia que beijei o Carlos para experimentar como era um beijo a sério e não havia nada nem ninguém por perto… também o obriguei a chupar-me porque ele era mais novo do que eu três anos e tinha força para o obrigar a fazê-lo. Sim, que eu queria saber como era chuparem-me. Alto, isto ainda é sexo mas… mas não é bem sexo. Compreende, é confissão de pré-adolescência masculina, a coisa mais dura do mundo: Não podes sair do autocarro porque o irmão do Carlos e do Janeca vão bater-te. Não podes ir à aula de Matemática porque vais ao quadro e não vais perceber nada do que vais escrever. Não podes ajudar o amigo deficiente porque vão achar que és como ele e tu, tu és estúpido suficiente para o abandonar e querer ser popular. Vais roubar dinheiro aos teus pais para comprar cigarros e copos de Macieira para arder queimar e impressionar. Hoje já nem bebes. Vais andar de pendura numa Famel de duas velocidades e vais andar nela com uma fita enorme de um capacete ao dependuro e mais parecerás um rafeiro com orelhas compridas a caminho da matiné. E é isso mesmo que és.

Mas também serei o pai. Eu quero que ela ou ele se apaixone.
Entra.
Calhou-me uma miúda, que ironia. Que bom. Ela que ame e seja amada por homem ou mulher ou venha lá o que vier que eu quero estar para assistir. É um bom princípio de mudança. O teu primeiro acto de altruísmo sincero enquanto homem. E depois, podes citar Goethe ou Kierkegaard mas citas… e passo a falar de novo na primeira pessoa, cito o John Cuzack no Alta Fidelidade: “Na minha fantasia elas não têm cuecas de algodão e sei… sei que ao viver contigo o resto dos meus dias vais usar cuecas de algodão gastas. Estou farto de fantasia. Queres casar comigo?”

Podes sair. Fecha a porta, mas leva a chave.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Macho vê Sporting vs Porto

Um dos meus amigos eternos de quem um dia escreverei de forma íntima – sim mordam-se de ansiedade – disse-me hoje: “pá, pode ser que tenhas seguidoras de blogue/blog sim… elas gostam de coisas sensíveis”. Instado a deixar de ser maricas faço algo diferente. Apesar de já ter escrito de porrada, sofá e tv, prostituição, de ter chamado fascistas amorosos a pai e mãe, venho agora por este meio falar de: linhas baixas, transições e pressão alta. Isso mesmo! Bolinha que é bom. Durante noventa minutos esqueço a penhora da Direcção Geral de Impostos à minha fortuna e às minhas garantias bancárias, esqueço os despedimentos que por aí andam, esqueço o Barney and friends e a “música dos amigos” cantada por esse dinossauro violeta e esqueço a Kate Winslet. Claro que para dizer “estavas tão bem ao pé d’ Amália” como ouvia nos jogos distritais preciso de muito… de pelo menos dois falhanços do miúdo holandês do Sporting com cara de jogador de ping-pong. Impropérios não faltarão com certeza no Sporting vs Porto, até porque eu quero a felicidade daquele que me tramou vezes sem conta com golos de todas as formas e feitios. Falo do Domingos Paciência, que gosta muito de citar as tais “transições rápidas e a pressão alta do Elias”, esse miúdo com cara laroca, impossível de não simpatizar, até porque já teve uma depressão e viveu numa favela. E como sabemos isto tudo: ora?! Porque temos a melhor imprensa desportiva do mundo. Para amanhã os desportivos já trazem: “Vem aí o Russo” (Izmailov já ganhou seis vezes ao Porto); “Moutinho e Hulk em Alvalade com passagem para Londres” (o Chelsea quer levá-los, mas por que raio não os leva antes do jogo e assim já se evitam títulos com maçãs podres… vocês sabem do que eu estou a falar). Mas um outro amigo meu, que percebe realmente de futebol e até vê os relatórios de contas da SAD portista avisou, a brincar: “vamos ter Hulk contra Capitão América”. Ah pois é! O central Onyewu vai ter pela frente o Hulk e como o Onyewu é americano e tem músculos chamam-lhe “Capitão América”. Sublime. O que me parece estúpido é que o Hulk é o homem verde e o Capitão América veste mais azul e branco do que a Carolina… vocês sabem do que eu estou a falar. Enfim, acho que os jornais já pululam com trocadilhos. Não param de nos surpreender: para jogos em Coimbra há sempre “uma lição”, na Luz qualquer coisa “brilha ou ofusca”, no Dragão “chamusca-se”, o leão tem ou não tem “as garras afiadas”. Mais: agora poucos perdem pontos no “Berço da Nação” porque os “guerreiros do Minho” são os do Braga; o “caldeirão dos Barreiros” é sinónimo de má percussão e “maritemo maritemo” gritado por umas esganiçadas. “O que é Nacional é Bom”… quando ganha a outra equipa da Madeira e depois há sempre informação pertinente: Sabemos as estatísticas, ouvimos as opiniões de jogadores que já jogaram nos dois clubes (O Futre, tem de aparecer o Futre) e fazem-se suposições sobre as equipas titulares onde nunca acertam mais de meia equipa. Mas é o que temos e é lindo porque os reforços do Sporting são referidos em manchete a dizer que “querem ganhar títulos” (estou muito mais descansado) e os do Porto… os do Porto também. Não há desportivismo nenhum!

Mas no que interessa, e como não vou ao estádio mandar escarretas para o fosso e ver se me filmam para o ecrã gigante, espero que o João Pereira tome xanax, que o Hulk pinte o cabelo, que o Maicon jogue a lateral direito, que o Kléber fique no banco, que o Schaars jogue a trinco com o Matías e o Elias na frente dele, que o Carrillo não jogue matraquilhos e que o Vítor Pereira, que não foi escolhido por sorteio, seja ele próprio. Domingos, não tenhas medo de jogar com dois pontas-de-lança… mesmo que um deles seja o Bojinov. Domingos, não metas o Evaldo para o Ínsua jogar a médio ala. Domingos, não metas o Izmailov a titular que ele ainda não está preparado. E Domingos, quando vires uma bola na nossa área é gritar “Homem nas Costas” sem medo da mariquice. Não há nada que saber, é contar com a invenção do Vítor Pereira – que me parece bom homem e falo a sério – e esperar por qualquer coisa. Caso contrário, lá teremos o fado dos títulos: “Hulk vence duelo com Capitão América”.

Amanhã volto a falar de coisas sensíveis.
Mas, por agora, ainda o meu lado macho.
Ó Domingos: Rui Patrício, João Pereira, Onyweu, Polga, Ínsua, Schaars, Elias, Matías Fernandez, Capel, Bojinov e Wolf. O Bojinov descai para um dos flancos, o Schaars ajuda o Ínsua a travar o Hulk vindo de trás, o Matías é o número 10 puro e o Elias um volante carregado de pulmão. Depois tiras o Bojinov e metes o Carrillo, o Matías e metes o Izmailov, o Elias e metes o André Santos. Agora já me sinto um mestre treinador de bancada.

Antes do jogo de sábado devo falar com o Álvaro Magalhães sobre isto do Sporting vs Porto…. Porque durante a tarde vou aos saldos ou ao Portugal dos Pequeninos… também é de macho. Ou não é? Fico cá fora a rolar o palito nas duas situações enquanto Elas levam os miúdos e as mães. Pode ser que ainda apanhemos um concerto dos Carreira em qualquer lado se o Sporting estiver a perder ao intervalo por mais de dois…

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Parte da Noite

Há um suposto bar de hotel, e sabendo de antemão que não é bar de hotel entramos e um minuto depois de balcão – porque não existem mesas mas apenas máquinas de tetris e pacman – onde nos apalpam, beijam e segredam lambidelas nos lóbulos… somos tão desejáveis.

Há um motel de uma quinta junto a uma auto-estrada, agora portajada, onde não se entra nem de bóina nem de boné, nem de calças a mostrar o rego nem embriagado. Alcatifa, mesas de vidro, discos de cantores românticos portugueses… curiosamente os mesmos que são acompanhados por multidões de avós, mães e filhas com os maridos a dormir no carro ou ao relento para lhes comprar bilhetes. Gente de bem. Mas os maridos do relento, de vez em quando, ouvem os cantores românticos neste motel e pedem se sentam no colinho. Pedem champanhe. Somos tão ricos.

Há uma rua onde os rapazes entram nos carros a 15 euros. Mas também os que entram a 200 euros. Uns querem comer e outros comprar roupa e cintos dourados que digam DG. Aí perto, há um espaço que ensina a colocar preservativos com a boca. Agora já perguntam se quer ser ”chupado com ou sem…”. Agora já se beija com língua. Aquela chegou a semana passada e continua debaixo da agência bancária com informação dos mercados a passar em cima, como se fosse um rodapé em movimento dos jornais televisivos esquizofrénicos. Dizem que ela “ataca ali”. Somos tão engraçados.

Lá vem o branco
Lá vem o albino
Lá vem o cão português
Queres aturar o gordo
Fica tu com o ricalhaço com a mania
Aquele novo é meu
Fica com ele que gosta de bater com o pólo Lacoste nas costas das ninas
Quem te disse
Olha sei
O santinho disse-me que a mulher tem hemorróidas e não pode fazer anal, mas também não me pede anal… não percebo.
Com o preto eu não vou, gasta o dinheiro todo e depois vem bêbedo pedir de graça
Olha estou aqui quinze dias sem sair mas levo bom dinheiro
Filha, dormes depois
Só quero voltar para casa e pousar a cabeça na almofada

Eles são tão estúpidos